O “Dicionário Sentimental da Ilha de São Miguel”, de Fátima Sequeira Dias, descreve a expressão “calafonas” como correspondendo a uma designação jocosa apontada aos emigrantes de origem açoriana que regressavam dos Estados Unidos, aludindo, com sentido de humor, à Califórnia. “Calafonas” é agora também o título de uma compilação – com curadoria do açoriano DJ Milhafre – que recolhe algumas gravações precisamente entre a diáspora que, nas décadas de 70 e 80 apontara azimutes aos EUA e Canadá. A música traduz aqui frequentemente a coexistência de dois planos. Por um lado o da saudade, traduzida ora pelo recurso à língua materna, ora por ecos de raízes tradicionais. Por outro, um sentido de conquista de novos desafios e a busca da integração de modernidade, fatores que chegam sobretudo através da assimilação de novas formas e sons, aqui materializados em mais do que um caso ou no disco sound (escute-se “Eu Queria Ser Amiga” de Odilia Alvernaz e Seu Conjunto) ou nas emergentes electrónicas (com exemplo marcante em “Universo” de Terrie Alves, cantora que viveu em Toronto onde, em 1979, ou seja, antes da “Chiclete” ou do “Chico Fininho”, gravou e editou o álbum “Canta Para a Juventude”, em cuja capa coexistiam, juntamente com a imagem da protagonista, um valente carrão, sinal de sucesso e um galo de Barcelos, marca de saudade e, também, de identidade). 

Vemos assim que, entre a “família” da música made in USA ou Canada com raiz açoriana há mais do que os habitualmente citados Nuno Bettencourt ou Nelly Furtado. Entre os nove temas aqui reunidos estamos mais perto de um espaço de vida dentro ou pelo menos sempre próximo de comunidades portuguesas, sendo de acreditar que foi sobretudo ali que estas canções ecoaram, imagino que em muitas tardes e noites de festa. Entre as canções, quase sempre com tempero dançável, fala-se de trabalho (“O Pescador”, de José Augusto), de família (“Mulher e Filhos”, de João Teixeira), de identidade (“Eu Tenho Sangue Português”, de João Manuel), mas também de temáticas universais como o amor (“O Teu Amor”, dos Insiders, “Quando Por Ti Chamo”, dos Love Street” ou “Back In Time” de Marc Dennis & Atlantis) ou a liberdade (“Livre”, do projeto Empitre XIV with Johnny). 

O disco que representa, como lemos em palavras do seu curador (no inlay), “um tributo aos sons que uniram uma comunidade dispersa” é também “um testemunho das histórias de vida, superação e identidade cultural que marcaram uma nova era da emigração portuguesa e criaram a décima ilha dos Açores: a diáspora. Aqui ouvimos testemunhos de figuras que, munidas destas canções, brilhavam “em palco após uma semana de trabalho árduo, como verdadeiros Tony Manero de fim de semana”, como acrescenta o DJ Milhafre. Longe de ser uma caricatura, este disco é um retrato cultural e social de comunidades muitas vezes algo invisíveis entre os mapas da criação de uma memória musical fixada através de novos discos e antologias. Que este disco abra portas a arquivos que amplifiquem estes retratos da nossa memória coletiva.

“Calafonas – Music From The Azorean and Portuguese Diaspora 1970’s – 1980’s”, que junta vários artistas, está disponível em LP (edição limitada de 200 exemplares) e nas plataformas de streaming (Bandcamp), numa edição da Discos Milhafre. 

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