Foi sem aviso que Dorinha apareceu em Aguardela. O calendário apontava o ano de 1950 e, dois meses depois da sua chegada, na contracapa do seu disco de estreia lia-se que esse momento acontecera “em meio da tarde nublada” e que quem a avistou naquele dia, num banco da praça da cidade, escutou pela primeira vez o seu cancioneiro. “Melancolia em voz grave e viola de aço tocada com firmeza”, assim soavam canções como “Sigo” que, gravada em junho desse ano, escrevia assim o capítulo inaugural de uma história que teria descendências e consequências. Pouco depois o Aravena, um bar e lanchonete em Aguardela, na verdade o número 6 da Praça do Louro, testemunhava a eclosão de uma nova cena musical. E se Dorinha fora o gatilho, a ela juntavam-se entretanto outras figuras, entre as quais Oneide Horta que, em 1954, lançaria um álbum de estreia no qual ora revistava aquela (já célebre) forasteira ali chegada anos antes em “Bem Cedinho” ora cantava a sua própria música e palavras em “Canção Para Minhas Irmãs” ou “Quem Vê… Pensa” (esta assinada a meias com Dorinha). Com o título “Sucessos de Madame Oneide”, este álbum representa um dos primeiros de uma comunidade musical que então começava a prosperar em Aguadela e que, nos anos seguintes, nos deu discos como “Os Sete Mares” pelo coletivo com o mesmo nome, “Trovoada”, segundo álbum de Madame Oneide, a estreia do quarteto de samba jazz de Carolino de Marisma ou “Pés Quentinhos” de Othello Lucas, tudo isto ainda durante a década de 50…



Não houvesse agora uma chamada de atenção, e a história até poderia passar por real. Mas tanto Dorinha como Madame Oneide, discos como “Trovoada” ou “Os Sete Mares” e até mesmo a cidade de Aguardela (há um agradecimento a João Aguardela no próprio livro), não são senão figuras e lugares de ficção que encontramos num dos livros mais imaginativos que li nos últimos tempos. Com o título “100 Discos Para Conhecer Aguardela”, o álbum (em formato de capa de LP) assinado por Daniel Lopes (que já escreveu sobre Nara Leão ou Edy Star, pioneiro do glam no Brasil) e Raphael Salimena (com percurso na banda desenhada) é, tal como a capa sugere, a história de uma cidade (ou seja, Aguardela, algures no Brasil), contada através dos discos que ali foram sendo criados e editados desde a década de 50. Através das liner notes nas contracapas, das fichas técnicas, dos próprios títulos das canções e dos nomes dos artistas e bandas, numa sucessão de discos que inclui álbuns de tributo, bandas sonoras, registos ao vivo e por aí adiante, é-nos contada a história de Aguardela, surgindo assim os lugares, os protagonistas e os acontecimentos espelhados nesta coleção de cem discos. Se na dimensão narrativa o engenho fica aqui já evidenciado, vale a pena notar como as capas traduzem também afinidades naturais com a evolução que o design gráfico de facto traduziu desde os anos 50, juntando ainda ecos de modos e estilos que conhecemos de discos do mundo real. Quem mergulhar nestas páginas vai sentir como, tal como acontece na realidade, a música pode contar a história de um lugar. E com jeitinho até acabamos a imaginar o som de algumas canções…

“100 Discos Para Conhecer Aguardela”, de Daniel Lopes e Raphael Salimena, é uma edição em capa dura da Pipoca & Nanquim.





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