Os suíços Yello tinham já um percurso discográfico sólido e reconhecido quando, após três álbuns, é anunciada a saída de Carlos León, que fundara o grupo em finais dos anos 70, juntamente com o compositor e teclista Boris Blank. Dieter Meier, que chegou a bordo pouco depois, tinha acrescentado aos Yello uma forte marca de identidade pelas características raras da sua voz. Boris Blank, principal timoneiro criativo, mostrara já uma capacidade para cruzar referências e influências usando uma paleta de sons sobretudo feita com eletrónicas. Cabia depois a Carlos León (que manipulava fitas e efeitos) o reforçar da alma exploratória que marcavam muitos dos momentos de “Solid Pleasure” (1980), “Claro Que Si” (1981) e “You Gotta Say Yes To Another Excess” (1983). Reduzidos ao par Blank/Meier, com um batalhão de sintetizadores e munidos de um novo sampler Fairlight, os Yello ensaiaram no passo seguinte a primeira etapa de um ciclo da sua obra que, sem macular a sua identidade, deles fez um fenómeno de sucesso internacional, tendo o primeiro álbum gravado a dois representado a estreia de um grupo suíço no primeiro lugar da tabela de vendas do seu próprio país. 

O caminho que levou os Yello a “Stella” começou num sonho pensado para o teatro. Boris Blank tinha começado a idealizar um musical, com dimensão épica, que contaria a história de um mágico em tempos medievais e do poder que exercia sobre os que viviam ao seu redor. Razões financeiras deixaram o musical cair por terra, ficando o músico com um lote de canções das quais nasceu então o núcleo de trabalho que o conduziu a “Stella”, álbum que assim manteve vivo o mood e até mesmo alguns detalhes narrativos (e até mesmo personagens), criando um ciclo de canções onde se destacaria depois, em lugar da alma exploratória dos tempos de Carlos León, uma ideia de sonoplastia algo cinematográfica (“Stalakdrama” é um bom exemplo dessa dimensão cénica desenhada por sons). 

Apesar do mapa desafiante de paisagens e ambientes que cruzam o alinhamento, o álbum tem nos seus alicerces uma mão cheia de grandes canções como “Vicious Game” ou “Desire” que demarcaram o vincar de uma identidade nova (nascida da evolução direta de pistas exploradas nos três álbuns anteriores). O ex-libris do disco nasceria depois, quando o duo não previa extrair mais singles deste alinhamento, quando o realizador John Hughes, admirador dos Yello, resolveu incluir “Oh Yeah” na banda do filme “Ferris Bueller’s Day Off “, que em Portugal estreou como “O Rei dos Gazeteiros” e, no Brasil, como “Curtindo a Vida Adoidado”. Canção com génese atribulada, com Blank pedindo a Meier que deixasse de lado a letra que havia escrito e cantasse antes poucas palavras, quase nenhumas, “Oh Yeah” revelar-se-ia um dos maiores êxitos da obra dos Yello. E em si a canção guardava a chave que os levaria aos discos seguintes.

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