Quando falamos da música made in Bristol e limitamos o olhar aos Massive Attack, Portishead, Tricky, seus contemporâneos e descendências, é claro que estamos a deixar de fora muitos outros nomes, caminhos e épocas. Das Bananarama a Nik Kershaw, dos Pigbag ao Pop Group, de Robert Wyatt aos Tears For Fears, dos Propellerheads aos Idles, a lista é vasta e transcende naturalmente os terrenos do trip hop que, pelo caráter de epicentro que Bristol conheceu nos noventas, acabou por marcar aquela geografia portuária plena de cruzamentos, trocas de ideias e… grandes discos. E na verdade, se queremos contar a história pop de Bristol para além desses dias que tiveram a cidade na mira das atenções, temos de convocar os Blue Aeroplanes, banda indie (podemos até usar aqui a expressão art rock) com obra que recua a 1981 e ainda hoje em atividade.
Juntando os irmãos Gerard e John Langley e o dançarino Wojtek Dmochowski a uma série de outros músicos que ao longo dos anos foram passando pela formação da banda, os Blue Aeroplanes nasceram das cinzas dos Art Objects (uma banda new wave que editou dois singles e um álbum entre 1980 e 1981) e têm um percurso com vários episódios significativos que podemos encontrar entre o seu álbum de estreia “Bop Art” (1984) e o mais recente “Staring at the Future” (disco de 2024 que reunia temas gravados nas sessões do anterior “Culture Gun”). Entre o (justamente) aclamado “Swagger” (1989) e o successor “Beatsongs” nasceram algumas das suas canções com maior visibilidade, mas logo entre primeiros singles (reunidos em 1988 na compilação “Friendloverplane”) e episódios posteriores, entre os quais o belo “Rough Music” (1995), o percurso dos Blue Aeroplanes está cheio de canções que vale a pena resgatar ao relativo silêncio a que a memória os tem votado.

O seu percurso começou por revelar uma banda que foi contemporânea dos Smiths na criação de uma nova linguagem indie rock para guitarras que valorizava o poder da palavra. Quando esse célebre quarteto se separou e a busca de novos heróis começou por bater à porta dos House of Love, os Blue Aeroplanes arregaçaram mangas e criaram o disco que acabaria por se tornar o seu álbum de referência, traduzindo os tempos desse “Swagger” uma capacidade em assimilar os caminhos de uma cena indie rock que começava a assimilar ecos da cultura noturna. Mesmo assim não desviaram o caminho, nem mesmo quando depois eclodiu um reencontro generalizado com as guitarras em clima brit pop. Trabalhando a voz num registo entre o declamado e o cantado, chamando a bordo um dançarino (muito antes de Paul Rutherford dos Frankie Goes To Hollywood ou Bez dos Happy Mondays), vincando a costela arty acima dos riffs para sonhos de grandes plateias, os Blue Aeroplanes lançam agora um novo “best of” que junta novos pontos de vista sobre a sua obra face a compilações anteriores. Apesar do âmbito temporal alargado, uma opção para (re)descobrir esta obra pode começar por “Huh! The Best Of The Blue Aeroplanes (1987-1992”), disco de 1997 que foca o período mais criativo do grupo. O novo “Magical Realism: The Best of The Blue Aeroplanes” dá-nos, contudo, o olhar mais amplo alguma vez centrado nesta notável (mas relativamente pouco conhecida) discografia. Como cereja sobre o bolo o novo “best of” junta “Showing Off To Impress Girls”, uma memória do tempo dos Art Objects.
“Magical Realism: The Best of The Blue Aeroplanes” está disponível em 2LP (mais um single extra) e 2CD numa edição da Chrysalis Records.





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