Quem não gosta de uma boa lista? Neste mundo dos discos até quem não gosta de listas acaba a consultá-las, nem que para dizer (e cada um terá naturalmente a sua razão) que não fazem sentido. O certo é que cada lista publicada através de meios de grande visibilidade gera reações. É o que acontece quando a “Rolling Stone” lança uma nova votação sobre melhores discos de sempre, atualizando o painel de votantes e, assim, acaba a repetir também como os pontos de vista vão mudando com o avançar dos tempos. O jornalista Ricardo Alexandre, que durante quatro temporadas escreveu e o podcast “Discoteca Básica”, resolveu desafiar 162 personalidades do universo musical no Brasil, convidado cada um a escolher 50 álbuns de música brasileira. Da reunião das 162 votações individuais assinadas por jornalistas, autores de podcasts, youtubers, produtores, músicos e lojistas surgiu uma lista de 500 discos. Os dez primeiros classificados foram revelados em maio de 2022 e, no final desse mesmo ano, a lista completa surgiu na forma de livro.

Sob o título “Os 500 maiores álbuns brasileiros de todos os tempos” o livro acaba por ser uma proposta de um panorama sobre os caminhos de uma das mais ricas histórias da música popular. Validada por especialistas, esta enumeração ordenada de 500 títulos traduz os destaques ou as omissões que são naturais em qualquer lista. Na verdade, para todos ficarmos sempre satisfeitos, não há nada como cada um fazer a sua, ditada pelo gosto, vivências e amplitude do conhecimento sobre o universo retratado. Mas esta é uma lista sólida, informada, marcada pela diversidade de géneros e com boa representação de diversas épocas. E o livro junta informação sobre cada um dos 500 álbuns, com textos maiores para os títulos mais bem classificados, reduzindo gradualmente as extensões dessas notas ao descer na lista. 

Para quem há três anos não acompanhou esta votação, a lista tem no clássico (e belíssimo) “Clube da Esquina” (1972) de Milton Nascimento e Lô Borges o seu número um. Seguem-se, por ordem, “Acabou Chorare” (1972) dos Novos Baianos, “Chega de Saudade” (1959) de João Gilberto, “Secos & Molhados” (1973) dos Secos & Molhados, “Construção” (1971) de Chico Buarque, “A Tábua Esmeralda” (1974) de Jorge Ben Jor, “Tropicalia ou Panis et Circensis” (1968), aquele disco coletivo que juntava Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, os Mutantes (nos tempos com Rita Lee), Tom Zé, Capinam, Torquato e Rogério Duprat, “Transa” (1972) de Caetano Veloso, “Sobrevivendo no Inferno” (1997) dos Racionais MC’s e “Elis e Tom” (1974), de Elis Regina e Tom Jobim, que encerra o Top 10. Surgem, depois, mas agora sem ser nesta ordem, nomes como os de Cartola, os Titãs, Edu Lobo, Paralamas do Sucesso, Erasmo Carlos, Marisa Monte, Cazuza, Elza Soares, Sepultura, Chico Science e a Nação Zumbi, Criolo, Blitz, Gang 90 & Absurdettes, Los Hermanos, Maria Bethânia, RPM, Legião Urbana, avançando nos tempos até chegar a representar figuras marcantes no presente como Tulipa Ruiz, O Terno ou Ana Frango Elétrico. Caetano Veloso é o mais representado, com 14 discos, seguindo-se Gilberto Gil (11), Gal Costa (8), Rita Lee (8), Roberto Carlos (8), Os Mutantes (7), João Gilberto (6), Tom Jobim (6), Jorge Ben Jor (6), Elis Regina (6), Tim Maia (6), Paulinho da Viola (6) e Elza Soares (6). 

Além dos 500 discos o livro, que foi possível após uma campanha de crowdfunding que juntou mais de três mil contribuições, apresenta textos complementares sobre arranjadores, estúdios, colecionadores, instrumentais ou capas de discos. E mostra respeito pela diversidade de opiniões ao publicar outras listas que surgiram em publicações como as revistas “Bizz” e “Rolling Stone Brasil” e pela MTV. Quanto ao título, vale a pena notar a nuance que se define ao usar a palavra “maiores” em lugar do “melhores” mais frequentemente usado neste tipo de listas. Só isso diz muito pelo respeito pela diversidade da música aqui reunida e das diferenças de gosto entre os que poderão folhear estas páginas. 

Post scriptum em jeito de nota pessoal: Não deixo de notar a ausência do álbum “Sim Sim Sim” do coletivo Bala Desejo, não apenas pela música em si mas também pelo modo como traduz ecos de uma realidade criada em tempo de pandemia, fixando no alinhamento de um disco inevitáveis ecos desse tempo. E, numa eventual lista minha, Nara Leão estaria claramente lá mais perto do topo, destacada no Top 10, com o seu magnífico álbum de estreia. Marisa Monte e Tulipa Ruiz surgiriam igualmente com muito maior destaque. E Tim Bernardes, Bruno Berle, Letrux, Zé Ibarra (a solo), Fernando Falcão, Amaro Freitas, Virginia Rodrigues ou os Boogarins, não esquecendo Carmen Miranda, apareceriam igualmente bem colocados… Mas, lá está, essa seria a minha lista (e feita à distância de um oceano). Afinal está tudo certo.

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