Depois de normalizada a vida política e de criada uma cultura jovem no Portugal de inícios dos anos 80, o passo seguinte para muitos foi o que procurou aprofundar o gosto pela busca de novos desafios, estimulando a criatividade para além dos limites normativos. Da música à moda, a Lisboa de então acolheu novos vultos e ideias. Diferentes entre os diferentes os Pop Dell’Arte surgiram em inícios de 1985 com o (mítico) Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous na mira dos seus primeiros objetivos, acabando então brindados com o Prémio de Originalidade. Eram os primeiros passos de uma carreira fundamental na definição de uma cultura alternativa na música portuguesa. Mas tudo começou num estúdio em Campo de Ourique uns meses antes.

A 11 de fevereiro de 1985, entraram no estúdio Musicorde, em Campo de Ourique, para, sob o olhar atento de Rui Remígio, registar uma primeira maquete. Tinham dinheiro para duas horas de estúdio, mas ficaram ali perto de quatro e, como ainda hoje recorda o próprio João Peste (na sua página no Facebook), o estúdio não lhes terá cobrado mais do que duas horas e meia, obrigando mesmo assim o vocalista a uma corrida breve até casa dos pais para ir buscar mais uns escudos. Ali nasceram “Turin Welisa Strada”, “Eastern Streets”, “Bladin” e “Sonhos Pop” e, assim, um primeiro retrato gravado de uma nova ideia pop em construção. Eram então no estúdio João Peste, Zé Pedro Moura, Paulo Salgado, Ondina Pires, Sapo e Luís Saraiva. E assim, há 40 anos, davam esse primeiro passo, já com o Concurso de Música Moderna na linha do horizonte.

Concorreram. Não ganharam, mas saíram de lá com o Prémio de Originalidade. Troféu justo, brindando logo à nascença uma banda que desde então traçou um percurso único, sem comparação a mais nenhuma banda deste e do outro lado das fronteiras.

O ponto de partida para a música dos Pop Dell’Arte foi, definido pela ordem instrumental e pelo universo em que se afirmaram, o espaço que genericamente se descreve como o pop/rock alternativo. Mas desde cedo outros estímulos e influências – da literatura e artes plásticas à própria música – incentivaram a procura de outros caminhos. Heranças de visões de Braque e Picasso sobre a colagem (em inícios do século XX), a ideia do ready made de Duchamp e a pop art de Warhol foram apenas alguns entre os muitos dados que o grupo levou às suas composições, imagens e concertos. Assim se definiram temas icónicos como “Sonhos Pop” ou “Illogic Plastik”, esse álbum de estreia absolutamente visionário que foi “Free Pop” (editado em 1987) e, toda uma restante discografia que, muito espaçada no tempo, inclui ainda os álbuns “Ready Made” (1992), “Sex Symbol” (1995), “Contra Mundum” (2010) e “Transgressio Global” (2020), além de vários máxis e EPs e duas antologias.

Passo determinante na afirmação não apenas da personalidade dos Pop Dell’Arte mas de um espaço próprio no panorama da música portuguesa de meados dos oitentas, numa altura em que uma nova cultura alternativa emergia, foi o surgimento da editora independente Ama Romanta, que assegurou o lançamento dos primeiros títulos da obra do grupo, a eles juntando outros que ajudaram a dar forma a uma geração que procurava, de uma genética comum, partir rumo a horizontes desconhecidos, fugindo a sete pés de mimetismos ou seguidismos. Ser ousado, ser diferente era a norma. E juntamente com nomes seus contemporâneos como os Mler Ife Dada ou Mão Morta, os Pop Dell’Arte fizeram a diferença.

A obra dos Pop Dell’Arte passou por várias etapas, cada qual atenta a novos estímulos e surgindo em contextos distintos. Mas sempre não alinhada. Houve assimilações da cultura rave nos anos 90. Houve uma breve passagem por uma multinacional (a Universal, onde editaram um álbum em 1995). Houve problemas pessoais e pausas. Mas sempre que regressam revelam uma rara capacidade em juntar novas gerações que deles tinham ouvido falar aos velhos admiradores que nunca os abandonaram.

Há alguns anos, numa entrevista para o DN, João Peste dizia-me que sabia que o projeto da Ama Romanta estava condenado à partida, porque começavam “com uma situação em défice”. Essa consciência fez com que ali nunca procurassem o negócio, o lucro. Mantiveram assim intacta a atitude e, como ele mesmo descreveu, uma certa “pureza de intenções”. O álbum de estreia dos Velvet Underground, por exemplo, foi um fracasso nas vendas em 1967. É verdade que deixaram mais evidente descendência. Mas, como os Pop Dell’Arte, cruzaram universos e aproximaram a noção de arte ao espaço da cultura pop/rock.

Com João Peste agora e sempre como a sua voz e mais visível rosto, os Pop Dell’Arte são hoje, além dele, Paulo Monteiro (guitarras), Zé Pedro Moura (baixo), e Ricardo Martins (bateria).

Como complemento a esta memória, fica aqui parte de uma entrevista que fiz com o João Peste (JP) e o José Pedro Moura (JPM) em 2005, quando se assinalavam os 20 anos de vida dos Pop Dell’Arte. Não será demais sublinhar que esta é uma entrevista de arquivo e que as perguntas e respostas datam de 2005.

Em 1985, quando os Pop Dell’Arte apareceram, o meio pop/rock português era efervescente…
JPM – E hoje, apesar de haver mais facilidade ou mais meios para fazer as coisas, não há mais coisas a acontecer. Parece que as pessoas estão mais desmobilizadas.

E o que mobilizava então as pessoas?
JPM – Primeiro éramos putos, havia aquilo de fazer as coisas pela primeira vez, aquela descoberta contínua. Bem, mas agora também há putos, e as coisas não acontecem da mesma maneira. Depois havia o Rock Rendez Vous, um espaço onde se apresentavam bandas, que hoje não há. Havia as rádios independentes, e isto hoje, em termos de rádio, é um descalabro.
JP – Pelo facto do Rock Rendez Vous ter acabado nos anos 90 houve tentativas de fazer espaços que tivessem novamente uma certa atitude. O que mais se chegou a aproximar foi o Ritz Clube. Mas tinha uma série de condicionalismos. Se tivesse sido apoiado, o Ritz Clube teria sido o novo Rock Rendez Vous, não interessa se no Rego ou na Praça da Alegria. Mas tinha sido prometido um apoio da Câmara, que depois falhou. Os Pop Dell’Arte chegaram a tocar no Ritz Clube com intenção de ajudar a recolher fundos e criar uma situação em que o espaço pudesse surgir como um novo Rock Rendez Vous que faz tanta falta à sociedade portuguesa. E a coisa ficou em águas de bacalhau por causa da actual Câmara de Lisboa. Bastava o cachet de uma super-banda que toque numa noite das Festas da Cidade, e isso pagava as obras para que Lisboa tivesse um espaço para corresponder ao que o Rock Rendez Vous foi.

Não havia no Portugal de 80 uma vontade em criar, pela primeira vez, uma cultura alternativa entre nós?
JP – Uma cultura alternativa que não acontece só na música. Nessa altura começam a aparecer os primeiros fanzines, os primeiros realizadores de certo tipo de cinema, e até mesmo na vida nocturna, no Bairro Alto, ou mesmo a ideia de moda, que até então quase não existia em Portugal. Foi o safanão que o país teve de dar depois de 48 anos de ditadura.
JPM – Que aconteceu também em Espanha, mas eles agarraram a coisa de outra maneira. Cá, não…
JP – As coisas não são tão comparáveis assim, porque há grandes diferenças entre os dois países, mas é verdade que a Espanha conseguiu construir uma identidade nova, pós-moderna ou como lhe quiserem chamar. E nós ainda estamos a fazer os projectos.

Na altura, os Pop Dell’Arte, como tantos outros projectos, estabeleciam pontes entre a cultura musical alternativa e outras formas artísticas. Uma confluência de gostos e curiosidades?
JP – Quando penso nisso tudo não deixo de achar que sou um falhado. Os objectivos que tínhamos não conseguiram vencer. Eu sabia que o projecto Ama Romanta estava condenado à partida, porque começávamos logo com uma situação de défice. Não estávamos também à procura de lucro… E isso também levou a que se mantivesse a atitude. Como não havia a ilusão de que podíamos dar a volta e ganhar dinheiro com isto, isso fez com que se mantivesse uma certa pureza de intenções. E hoje estamos a deixar a fase industrial para uma informacional, e a própria expressão indústria musical deixará de fazer sentido.

A reflexão sobre a sociedade, as culturas e a afirmação sexual são os três pilares temáticos da obra dos Pop Dell’Arte?
João Peste – Chamava-lhe mais, talvez, libertação sexual… Essa é uma arrumação possível, sim. Faz sentido, mas não o tinha pensado assim. As coisas foram acontecendo. Se me perguntassem quais seriam as preocupações temáticas dos Pop Dell’Arte diria que também a resistência, a transformação. E sempre houve, de facto, uma carga forte relativamente à identidade e à orientação sexual, que tem a ver com o próprio contexto. Em Portugal as coisas continuam a ser tabu, e houve até situações ridículas de censura sobre coisas que fizemos, desde a capa do “Illogik Plastik” a letras… Situações que considero incompreensíveis.

A obra musical dos Pop Dell’Arte é muito versátil, mas há duas ideias que a marcam: a colagem (antes mesmo do conceito de samplagem vulgarizado) e o ready made . Conceitos introduzidos na música portuguesa pelos Pop Dell’Arte?…
JP – Não tinha pensado nisso assim… Há um cheirinho ou outro de colagem no “Hardcore” dos GNR. Em relação ao ready made , não.

De onde veio a ideia de importar o conceito de colagem, habitualmente mais ligada à imagem (artes plásticas, cinema, fotografia) ou letras, para a música?
JP – A responsabilidade, aí, até cabe bastante a mim. Eu não era músico. Não tinha formação musical como o Zé Pedro ou o Luís San Payo. Por isso não foi uma estratégia, quase uma consequência. Quando me juntei às pessoas de Campo de Ourique queria participar nas bandas que se estavam a formar, e não sabia muito bem a fazer o quê. Não tinha formação nem um instrumento com o qual me identificasse. Se tivesse de optar por algum seriam as teclas, porque nunca me identifiquei muito com os instrumentos de cordas. São pesados e desconfortáveis (risos)… Mas achei sempre que poderia fazer música. Aliás, isso é uma consequência ideológica do punk rock. Depois, nos anos 80, embora directamente não pareça ligado a esta ideia, o conceito que os Einstuerzende Neubaten marcaram, mais conceptualmente que em termos de influência de sonoridade. Obviamente que havia uma tradição de arte moderna em relação à colagem, que apareceu em 1912 com o Braque e o Picasso. O conceito depois foi desenvolvido pelos futuristas, pelos dadas, pela pop art. Os Pop Dell’Arte tinham por referência esses movimentos artísticos, porque éramos um projecto arty , pelo menos da minha parte. Isto porque não me propunha a entrar no meio musical por ter determinados dotes musicais, mas pelas ideias que poderia ir buscar a outras áreas. Tinha frequentado o conservatório a estudar teatro, estava em sociologia, tinha determinadas ligações às artes plásticas e à literatura. E apesar desse lado arty , os Pop Dell’Arte nunca se assumiram como um projecto elitista, de alta cultura, mas sim um projecto pop. E, dentro da música, ligado ao rock. Posteriormente, houve a revolução na música de dança e isso também foi incontornável.

De resto, nada mais que uma evolução natural da cultura pop…
JP – Certas formas de expressão no final dos anos 80 e no princípio dos anos 90, a tecno , as raves e as novas drogas foram, no fundo, uma apropriação do espírito do rock’n’roll pela música de dança.
José Pedro Moura – E o papel da música de dança é, em finais de 80, muito parecido ao do punk e new wave.

Foi a consciência de que houve um movimento cultural e social que se manifestou na música nos anos 80 que levou, nos 90, uma multinacional com a Polygram a assinar os Pop Dell’Arte?
JPM – Eu acho até estranho como é que o não fizeram mais cedo…
JP – E porque não continuaram?… Mas isso só quem estava lá é que o poderá explicar. Mas por pouco que o “Sex Symbol” tivesse vendido, e não foi tão pouco porque teve várias edições e está esgotado, não me parece que os números sirvam para justificar. Há coisas que não vendem e têm segundo ou terceiro disco. Se eles pusessem fora quem não venda sempre ao primeiro disco…

Mas porque se passou o que se passou?
JP – Compreendo que as bandas que existem no underground a determinado momento, quando sobrevivem acabam por assinar por multinacionais mais tarde ou mais cedo. A história está cheia de casos, e alguns até se mantêm a fazer coisas muito radicais. E até servem para as multinacionais justificarem que mantêm uma actividade artística. Mas o contexto português é muito diferente… E a coisa não aconteceu só connosco, mas também com os Mão Morta.
JPM – E aí tanto na BMG como na NorteSul.
JP – E não sei se os Mler Ife Dada tivessem sobrevivido o que lhes teria acontecido. Até porque as pessoas que estavam ligadas aos Mler Ife Dada, como a Anabela Duarte, o Pedro D’Orey e o Nuno Rebelo, que é o melhor músico da nossa geração, estão hoje em independentes. Este cenário é comum à troika das bandas ligadas ao Rock Rendez Vous de 1984 a 86, ou seja, nós, Mão Morta e músicos dos Mler Ife Dada.

Os problemas entre a PolyGram e a banda afectaram a atividade dos Pop Dell’Arte na segunda metade dos anos 90?
JP – Houve ali um período de crise da minha parte. Uma crise pessoal que teve essas repercussões.

O EP “So Goodnight” , quando apareceu em 2002, foi pensado como um cartão de visita para uma nova etapa?
JP – O “So Goodnight” foi, como então o disse, um EPA. Está tudo dito! (risos). Não era um cartão de apresentação de nada. Havia dois temas, o “Mrs Tyler” e o “So Goodnight” que estávamos a tocar e de que as pessoas gostavam. E não havia condições para fazer um álbum novo. E não nos parecia fechar esses temas na gaveta e esperar não sei quantos anos para que acontecesse alguma coisa. A realidade é esta: os Pop Dell’Arte não gravaram um disco novo porque não há dinheiro para os Pop Dell’Arte gravarem um disco novo! Não é haver falta de canções… Obviamente podíamos ir para a cozinha gravar o disco, ou para a garagem. Mas depois de termos trabalhado em determinadas condições… É que quando gravámos o “Querelle” e o “Free Pop” começámos logo nos estúdios Valentim de Carvalho. E mesmo quando gravámos a primeira maquete e o “Divergências” fizemo-lo nos estúdios da Musicorde em Campo de Ourique, com o Rui Remígio.

Há uma bitola de exigências mínimas nos Pop Dell’Arte?
JP – Não quer dizer que não poderíamos fazer um disco noutras condições, mas habituámo-nos assim. Não gravámos nestes últimos anos porque, quando os Pop Dell’Arte deixam de se editar a si próprios como banda, deixam de ter alguém que se interesse por si. E isto sem fazer a conversa do desgraçadinho. Mas o facto é que, à excepção da Polygram nos ter assinado a dada altura, houve sempre um virar das costas da indústria aos Pop Dell’Arte.

E como está o livro de memórias de que se já falou no passado?
JP – Adiado!… Como ainda tenho um sonho ou dois, dá sempre para ir adiando… Por um lado fui adiando porque uma pessoa constrói essas coisas a partir de um epicentro, e algum tempo depois a visão dessas mesmas coisas é bastante diferente. Se o tivesse feito corresponderia à visão daquela altura em que o comecei a fazer. Agora já tenho que pensar as narrativas de outra forma. Quando surgiu essa ideia, há dez anos, escrevinhei algumas coisas. Mas muito aconteceu depois disso… Mas pode fazer mais sentido uma história dos Pop Dell’Arte.

Uma das últimas aparições dos Pop Dell’ Arte (antes do regresso em 2005 e da compilação “PopPlastik”), foi no concerto Avariações, uma homenagem a António Variações…
João Peste – Eu senti-me muito desconfortável a cantar as coisas do António Variações. Sinto-me piroso, no entanto aquilo, na voz dele, não é piroso. Era o génio dele, além de fazer aquelas brincadeiras como a Maria Albertina … É preciso uma capacidade interpretativa para dar a volta àquilo. Gosto do trabalho dos Humanos, mas tiveram de ser pessoas muito bem escolhidas para cantar aquilo… Às vezes também me falam em fazer um disco de homenagem aos Pop Dell’Arte e é-me estranho imaginar como é que soaria… No espectáculo acabámos por fazer uma homenagem ao António Variações, mas sem respeitar a intenção que era a de fazer uma versão. Se calhar foi melhor assim, porque não ficámos com o peso na consciência de ter estragado um tema dele.

Por onde tinham andado os Pop Dell’ Arte?
JP – Os Pop Dell’Arte tinham andado recolhidos. Depois da saída do Luís San Payo e do concerto em Londres com o Nuno dos More República Masónica, os Pop Dell’Arte retiraram-se de cena. Mantivemo-nos como um núcleo a ensaiar, eu, o Paulo Monteiro, o Zé Pedro Moura e por vezes também o Tiago Miranda. Tirando o espectáculo do António Variações estávamos desactivados. Ensaiávamos não para um concerto ou fazer um disco, mas só para não perder o jeito. Depois surgiu o convite da organização das Festas da Cidade para tocarmos no Fórum Lisboa. Entretanto apareceu um grupo de fãs a propor fazer um site dos Pop Dell’Arte. E tudo coincidiu com o vigésimo aniversário do grupo. Resolvemos, sem grandes compromissos, assumir o espectáculo para comemorar os 20 anos, mas sem grandes perspectivas para fazer grandes coisas a partir daí.

Esta efervescência social que vivemos não é matéria-prima ideal para uma banda que sempre esteve atenta ao seu tempo, aos fenómenos da sociedade e das artes?
JP – É irónico, porque nós aparecemos, quando fizemos o “Mai 86”, com uma certa visão. Mas só os tolos é que não mudam de opinião. Havia um certo niilismo e desencantamento, que tinha a ver com os anos 80, nas letras e na postura que se assumiu, que passados 20 anos não consigo manter. Olho para as coisas e vejo-as de um modo diferente, não sei se pessimista será a expressão ideal. O pessimimo ter-nos-ia levado a cruzar os braços. E acho que não foi isso que fizemos nem como Pop Dell’Arte nem como músicos ou pessoas. Criámos a Ama Romanta, tentámos fazer o máximo de coisas, e creio que neste momento, e vou dizer uma coisa horrível, seríamos um bom exemplo a seguir. Sobre essa perspectiva ideológica, já que noutras não seríamos nada um bom exemplo a seguir… Assumo o que disse! E digo que seríamos um bom exemplo, porque na época em que estivemos, no período em que aparecemos, não aceitámos as coisas como estavam e quisemos mudar. Inclusivamente, contribuímos para a mudança. As pessoas quando tomam atitudes mudam sempre qualquer coisa, mesmo que depois se vá parar à gaveta ou ao caixote do lixo (que se calhar é o destino de todos, embora não o queriamos aceitar facilmente). Neste momento creio que era importante as bandas e as pessoas mais novas reverem-se em certo tipo de atitude e maneira de estar, obviamente tendo como pano de fundo uma realidade diferente.

A sementeira de editoras independentes, como Ama Romanta ou a Dansa do Som, teve frutos?
José Pedro Moura – Há uma Borland, essas coisas. Mas são coisas muito pequenas. Se calhar é um mercado que interessa às grandes que não se desenvolva. Mas passados 20 anos a situação continua na mesma, senão pior.
João Peste – Estamos num contexto de “make it or break it”… Nesta primeira década do século XXI é extremamente importante as pessoas fazerem coisas, virarem-se umas para as outras e entrarem em interacção. Estamos a viver num período histórico de mudança. No início dos anos 80 estávamos a levar com um contexto ainda de fim de guerra fria, embora o que é hoje a União Europeia já germinasse desde há muitos anos…

Juntando aí o contexto peculiar do Portugal político, social e cultural do pós-25 de Abril…
JP – Era um contexto muito específico, sim. Mas era mais fácil encontrar uma continuidade nas coisas do que hoje, onde tudo parece descontínuo. Às vezes parece ficção-científica. Neste momento é importante as pessoas marcarem posições, tomarem atitudes. Porque, mais que nunca, o futuro depende de nós. Se soubermos utilizar a tecnologia ela pode-nos permitir uma série de coisas. As pessoas podem-se libertar sexualmente, ideologicamente, podem-se ultrapassar barreiras que antes eram intransponíveis na comunicação. Nos anos 80 denunciei aquilo a que chamava ditaduras culturais, que hoje não deixam de fazer sentido, embora possa estar nas nossas mãos que possam, mais que nunca, ser derrotadas. A proposta da Ama Romanta era a de as derrotar, ou pelo menos fazer resistência. A resistência, às vezes, já é uma derrota dessas ditaduras. Por vezes os projectos não existem para tomar o poder, mas para existir e resistir. A Ama Romanta e os Pop Dell’Arte, nesse aspecto, foram uma pièce de resistence. O tal exemplo…
JPM – E quando há uma administração mais reaccionária e conservadora, como a administração Bush, geralmente acontecem as coisas mais interessantes na música e outros tipos de expressão. Desde 2001 aconteceu um montão de coisas interessantes nos EUA, principalmente em Nova Iorque.

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