A imagem era daquelas de postal. O letreiro com fundo vermelho e letras brancas que chamava atenção para a Village Cigars é hoje mais um fantasma de uma Nova Iorque que vai desaparecendo. A pequena tabacaria, de forma triangular, ajustada à esquina da Sétima Avenida com a Christopher St, ladeada por duas entradas para o metro, fechou as portas em fevereiro de 2024. Fundada uns 102 anos antes, a pequena tabacaria cruzou mais de um século na vida de Manhattan, foi fotografada vezes sem conta e contou com o seu episódio mais invulgar quando, em 1938, o seu proprietário adquiriu o pequeno triângulo com 0,32 metros quadrados que completava o ângulo em frente da porta, precisamente no vértice da esquina. Esse espaço, que correspondeu ao mais pequeno domínio privado de Nova Iorque, nasceu de uma disputa entre a cidade e os proprietários dos terrenos cujos edifícios tiveram de ser demolidos para a abertura da avenida que ali passa ao lado. O Hess Triangule custou 100 dólares em 1938 mas o proprietário da Village Cigars optou por manter ali a nota escrita no pavimento, onde se lia que aquela área pertencia ao Hess Estate e não tinha sido consignada como espaço público…

Este triângulo, com as letras que nos recordam esta memória, é, mais do que um fantasma, um fóssil de outros tempos na história da cidade. Passei por ali numa das ocasiões em que fui a Nova Iorque. Já tinha chovido e estava uma manhã enevoada, fria, mantendo o chão molhado. Encostado a um dos bancos Christopher Park, parei para folhear a edição do “Village Voice” que tinha acabado de comprar. Na sua versão impressa este jornal é hoje um outro fóssil (comprava-o sempre que passava pela cidade e publicava uma das melhores listas de discos do ano, a Pazz & Jop, nome que piscava o olho ao jazz e à pop). Nessa manhã tinha ali mesmo ao lado o Stonewall Inn (que ainda resiste ao passar do tempo), a livraria Oscar Wilde (que fechou as portas em 2009, mais um fóssil)… Pela frente o mapa apontava para um destino ali perto… O número 85 da West Third, em tempos a casa de Edgar Allan Poe. Só mesmo para ver a placa que lá está na parede.
Deixando para trás o pequeno parque triangular, como que desenhado num jogo de simetrias opostas à pequena tabacaria e seu vértice teimoso desenhado no chão, avancei pela Grove St até à primeira esquina. E de um olhar rápido de reconhecimento logo me fixo numa loja da Bleeket St… No vidro da montra lia-se “Rebel Rebel”… E por detrás do vidro, discos… Era a tempestade perfeita. Tinha de ir ver o que se passava.



Ao entrar o proprietário olhou para o saco que eu levava na mão e comentou: “That bag makes me feel unease”… Algo que pode ser traduzido como “esse saco causa-me alguma ansiedade”… E porquê? Era um saco de cartão brilhante, daqueles de boutique chique. Preto. E em letras prateadas dizia: CBGB. Esse mesmo, o CBGB que ficava a uns 15 minutos dali, já no East Vilage. O CBGB dos concertos históricos dos Ramones, de Patti Smith, dos Talking Heads, dos Television, dos Blondie… O CBGB por onde eu mesmo tinha acabado de passar para gravar uma conversa com o seu velho proprietário (o mítico Hilly Kristal) e que, na porta ao lado, tinha agora um bar diurno com galeria de arte e uma loja onde se vendiam T-shirts e outros recuerdos com a marca ou memórias daquele clube tão marcante na história do rock’n’roll. No saco iam, bem dobradas, umas quantas T-shirts. Mas o aspeto mais de loja de roupa de griffe do que de clube de rock dava ao saco preto uma carga de facto insperada. E mal imaginávamos, eu e o dono da Rebel Rebel, que, depois de fechar (pouco depois), o CBGB daria lugar a uma loja de roupa… E até mesmo aquele lugar onde estávamos então a falar sobre um saco, entre pilhas de discos, estaria um dia também transformado… numa loja de roupa.
Apesar do primeiro embate difícil, a passagem pela Rebel Rebel foi frutuosa. E enquanto esteve aberta foi de passagem certa a cada visita à cidade. É claro que ao saco (que era grande) juntei nessa manhã mais uns discos e ainda um livro sobre Brian Eno. A conversa foi parar, sem surpresa, ao responsável pelo nome que a loja mostrava logo na montra. E, de resto, se dúvidas ainda existissem, uma foto de David Bowie, estava logo ali, à porta. A Rebel Rebel era uma daquelas lojas old school que em tempos idos faziam frente à era das megastores. Então com o CD na ordem do dia, e com o Record Store Day ainda por inventar, a Rebel Rebel mostrava aquela atmosfera de caos ordenado que atrai colecionadores e melómanos. Vinil usado por todo o lado (e também alguns CD), enchendo as paredes da pequena loja retangular, os seus armários e as caixas que impediam que houvesse muito espaço livre. Livros, revistas, posters, flyers. Um desafio às geometrias e aos catálogos de pantones. Mas, e como manda o clima dominante nestas lojas, era conversa quem juntava o tempero que fazia a diferença. Foi boa. Foi longa… E deu conta de que havia outras lojas a visitar ali em volta. O Edgar Allan Poe lá tinha de esperar…
Algumas dessas lojas ainda hoje existem. Mas a vizinha Bleeker Street Records mudou-se para a Rua 4 e a Downtown Music Gallery vive hoje outra zona de Manhattan. Já a Bleeker Bob’s Golden Oldies Record Shop mantém-se na Rua 3, assim como a House of Oldies e a Vinylmania na Carmine Street e a Generation Records na Thompson St. O mesmo não se pode dizer da maravilhosa Other Music, que ficava na metade Este da Rua 4, mesmo em frente à desaparecida Tower Video e era paragem obrigatória para procurar (e encontrar) novos discos de bandas ou artistas indie ou afins. E o mesmo se pode dizer da Tower Records, cuja grande e mítica loja na esquina da Rua 4 com a Broadway era uma viagem a muitas possibilidades em vinil e CD (mais CD por aqueles dias), com risco de magoar seriamente a carteira. Na verdade, tal como sucedeu com as pequenas Rebel Rebel ou Other Music o tempo também não foi gentil com as megastores. E tal como a Tower Records da esquina da Rua 4 com a Broadway também desapareceram do mapa as duas lojas da Virgin, tanto a que fica ali perto em Union Square como a colossal que habitava entre o buliço de Times Square. Onde morava a Other Music há uma loja de molduras, na velha Tower Video está um ginásio, na Virgin de Union Square está um banco e onde ficava a de Times Square há agora artigos desportivos. A velha Tower neste momento parece que não tem inquilino.
Ah, a placa evocativa de Edgar Allan Poe lá estava. Há fantasmas que sabe bem reencontrar.






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