Comandados por Pete Burns, figura que os meios melómanos de Liverpool conheciam pelo seu trabalho (com personalidade forte, conta-se) atrás do balcão de uma das mais célebres lojas de discos da cidade, os Dead Or Alive nasceram de uma evolução direta de uma banda anterior (os Nightmares on Wax) e trilharam um caminho inicial em regime pós-punk em 1980.
A banda estreou-se em disco em pequenas etiquetas independentes, logo em 1980, com um primeiro single, “I’m Falling”, ao qual se seguiu “Number Eleven” (1981) e “It’s Been Hours Now” (1982), todos eles ainda dominados pela presença das guitarras e desenhados sob atmosferas góticas que, na verdade, são ainda a marca central de “The Stranger”, o quarto single, editado em 1982, que seria o primeiro a dar-lhes uma entrada no Top Indie britânico (no qual chegou ao número 7, cativando atenções que lhes deram um acordo com a Epic Records pouco depois). Vale a pena notar neste quarto single a presença das guitarras de Wayne Hussey (que formaria os The Mission depois de abandonar os Dead or Alive em 1985), que daqui levaria sementes para a etapa seguinte da sua vida como músico.
Depois destes quatro singles lançados com visibilidade reduzida, a estreia dos Dead or Alive no catálogo da Epic Records revelou primeiros sinais de uma nova demanda. Sob produção de Zeus B Held, o single “Misty Circles” servia uma primeira amostra do que poderia vir a ser um álbum de estreia do grupo. A canção acolhia ainda algumas relações com a presença das guitarras, mas entregava já o protagonismo dos acontecimentos a uma relação entre a voz pungente de Pete Burns e um fundo instrumental de evidente afinidade com o eletro (que então marcava a contemporaneidade na música de dança em Nova Iorque). Não foi um êxito imediato. Mas abriu novas possibilidades, que o álbum “Sophisticated Boom Boom” depois explorou, gerando singles promissores como “What I Want”, “I’d Do Anything” e, sobretudo, “Thart’s The Way I Like It”, este último uma versão de um original de 1975 dos KC & The Sunshine Band que correspondera então a um dos primeiros casos de sucesso do disco.
É neste plano, já sob uma evidente presença de uma lógica dançável que encontramos o grupo num momento em que o seu caminho se cruza com um trio de produtores que, nos últimos meses, tinha trabalhado com nomes como os de Divine ou Hazel Dean e encontrado um ângulo de abordagem seu em terreno hi-nrg, uma descendência vitaminada em electrónicas com baixo musculado e batidas sintetizadas, nascida de ecos da cultura space disco e que entretanto havia conquistado atenções em pistas de dança de clubes gay em São Francisco e Nova Iorque. E é com Mike Scott, Matt Aitken e Pete Waterman que, depois do convite de Pete Burns, os quatro Dead Or Alive dão por si em estúdio com a equipa que com o tempo seria conhecida pela autoria de canções de Kylie Minogue, Rick Astley ou a dupla Mel & Kim, mas que aqui assumia apenas o trabalho de produção.
A primeira canção revelada do lote que faria, em 1985, o segundo álbum dos Dead or Alive, surgiu discretamente em single ainda em finais de 1984, mas foi aos poucos conquistando atenções e, 17 semanas depois, chegava ao número um na tabela de singles do Reino Unido. Tal como o impacte da canção não fora imediato, também a sua génese fora lenta. Pete Burns recordou que a ideia nasceu ao cantarolar sobre “I Wanted Your Love” de Luther Vandross e “See You ‘Round Like a Record” de Little Nell, não tendo contudo a editora gostado daquilo que escutou, ao ponto de ter sido a banda a avançar com os custos de gravação, segundo descreveu na sua autobiografia. Numa entrevista na BBC recordou, depois, como foi também tensa a relação em estúdio com a equipa de produtores Stock, Aitken e Waterman que, ali, tinha a sua primeira colaboração com a banda, ensaiando um modelo com raiz no hi-nrg, tal e qual haviam feito pouco antes com Divine e Hazell Dean, mas procurando ali um caminho capaz de vincar a identidade do quarteto de Lievrpool. A verdade é que com “You Spin Me Round (Like a Record)” nasceu um êxito de dimensões colossais que marcou o ano de 1985 e ganhou vida em várias ocasiões posteriores.
Depois do estrondoso sucesso global causado por “You Spin Me Round (Like a Record)” coube ao seu sucessor o desafio duplo de tentar manter o perfil de popularidade recentemente conquistado e assinalar a chegada de um segundo álbum de originais para a banda (agora no centro das atenções). A escolha recaiu sobre “Lover Come Back To Me”, canção pop claramente dominada pelo apelo dançável de travo hi-nrg que o estilo de produção do trio Stock Aitken e Waterman havia imprimido ao single anterior e que dominaria o alinhamento de “Youthquake”, o álbum. Este foi na verdade o primeiro de vários temas nesta linha que o grupo apresentaria e, de todos, foi o mais bem sucedido após o êxito maior obtido poucos meses antes.
O álbum levou então uma coleção coerente de canções, a estas duas juntando outras mais que, salvo a mais melancólica “It’s Been a Long Time”, que encerrava o alinhamento, eram todas elas eventuais candidatas a singles num caminho onde, tal como acontecera com “You Spin Me Round (Like a Record)” e “Lover Come Back To Me” a canção pop e as linguagens da música de dança bailavam em conjunto. Canções como I Wanna Be a Toy”, “DJ Hit That Button” e a ceticamente mais elaborada “Cake and Eat It” (pincelada com um flirt por exotismos orientais) podiam de facto ter conhecido vida no formato de singles, correspondendo mesmo “Big Daddy of the Rhythm” a uma escolha certeira nunca tomada, já que corresponde a uma das mais evidentes expressões do diálogo entre a pop e a hi-nrg que domina o alinhamento de um álbum que, se por um lado gerou um fenómeno de popularidade, por outro colheu puxões de orelhas de uma crítica que, ao invés da que atualmente convive bem com discos de uma Rihanna, Justin Timberlake ou Beyoncé, por aqueles dias ainda não tinha digestão fácil quando a música piscava o olho a estes domínios. Na verdade caberia a uma revolução de gostos e vivências que ganharia forma com a explosão da cultura house no mercado de singles, o impacte do acid house , a emergência dos primeiros casos de grande êxito crítico do hip hop (De La Soul e contemporâneos) e os cruzamentos indie e dança (via Manchester e afins) a abertura de caminhos para um alargamento das opiniões sobretudo nos jornais de música já que textos e opções editoriais de revistas como a “Smash Hits” ou “The Face” mostram que estas sentiram mais cedo para onde apontavam as bússolas da cultura pop.
Apesar do universo de possibilidades para um terceiro single, a escolha recaiu sobre “In Too Deep”, canção menos exuberante que olha mais atrás, rumo aos 70 e às raizes do disco como influência. Sem repetir sequer os patamares do single anterior, ajudou mesmo assim a manter viva a presença do grupo nas rádios e palcos nesse verão em ganharam dimensão maior. Haveria ainda, a fechar este verão quente, um quarto single extraído do álbum, a escolha recaindo aí sobre “My Heart Goes Bang”, na linha de “Lover Come Back To Me”. Apesar do sucesso ainda evidente do sucessor “Mad Bad And Dangerous To Know”, editado um ano depois e do qual nasceram êxitos significativos como “Something In My House” e “Brand New Lover”, cabe a “Youthquake” o papel de representar o momento mais significativo de uma obra que, com o passar dos tempos, reduziu o ritmo de lançamentos e quase reduziu a sua expressão como banda à personalidade do vocalista Pete Burns. Aqui, em 1985, com o baterista Steve Coy como braço direito, Mike Percy nos sintetizadores e baixo e Tim Lever nas guitarras (e também sintetizadores), Pete Burns concebeu com os Dead Or Alive um álbum que, antes mesmo dos Pet shop Boys e Erasure, definiu bases para um espaço novo de expressão da canção pop em terreno eletrónico e com a pista de dança encarada com a mesma ambição com que se sonhava a exposição das canções na rádio.
A estes dois destinos juntou-se uma presença destas canções na estrada numa digressão agora recuperada entre os extras de uma edição comemorativa do 40º aniversário de “Youthquake”. Apresentada no formato de um single de sete polegadas, a edição especial apresenta no CD1 o álbum tal e qual o conhecemos desde 1985. O CD 2 apresenta as diversas remisturas de “You Spin Me Round (Like a Record)”, tanto por alturas de “Youthquake” como as que surgiram em edições posteriores. No CD 3 temos os lados A e B dos singles e máxis de “Lover Come Back To Me”, “In Too Deep” e “My Heart Goes Bang”. E, no CD 4, a gravação de uma atuação ao vivo na digressão que acompanhou a edição deste álbum. Trata-se de uma bela edição de arquivo, mas na verdade não apresenta material inédito, já que tudo o que aqui encontramos estava já no alinhamento da extensa caixa “Sophisticated Boom Box MMXVI”, de 2016.

“Youthquake – 40th Anniversary”, dos Dead or Alive, é uma edição exclusivamente apresentada em 4CD, num lançamento da Edsel.





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