Do encontro entre Nuno Rodrigues e António Avelar Pinho começaram a nascer primeiras canções que cedo, ainda sem a banda formada, começaram a apresentar às editoras discográficas. Eram na verdade mais ideias do que gravações, mas sugeriam algo diferente e desafiante. Regressaram da Sassetti com um não de Pedro Osório. Mas da Phillips chegou um sim. E a ordem foi para avançar. Ao núcleo formado por Nuno Rodrigues (voz, guitarra e autoria da música) e António Avelar Pinho (voz, timbale e autoria das letras) juntaram-se Celso de Carvalho (contrabaixo e vibrafone), Carlos Zíngaro (violino e outras cordas), Nelson Portelinha (guitarra, flauta, harpa e metais), Luis Linhares (piano), José Campos Sousa (guitarra) e as vozes de Helena Afonso e Judi Brennan. Os ensaios decorriam no Louisiana e, aos poucos, um primeiro disco começou a ganhar forma.

Antecedido ainda em finais de 1974 por um single que revelava duas canções do seu alinhamento (“Lavados Lavados Sim” no lado A e “A Ladainha das Comadres” na outra face), o álbum “Dos Benefícios Dum Vendido No Reino dos Bonifácios” chegou já em 1975 e logo destoou de todo o universo discográfico ao seu redor. Primeiro pelo invulgar cruzamento de referências (da folk ao jazz, das periferias da nova música urbana a olhares sobre o país profundo), pela profusão de elementos cénicos em jogo e, num ano politicamente “quente”, pelo facto de se apresentar como uma proposta não alinhada. Mais do que criar e moldar canções como um manifesto político ou expressões dos ecos de um quotidiano altamente politizado, a Banda do Casaco procurou antes fixar em disco uma expressão da sua forma de estar no mundo, no país, naquele tempo. Ou seja, não deixavam de assumir na música uma perspetiva política, mas faziam-no sem uma lógica partidária, muito menos panfletária, procurando sobretudo refletir sobre comportamentos da sociedade de então.

Este foi o disco que inscreveu uma noção de produção com peso maior no mapa discográfico português, revelando ainda o início de uma longa colaboração com o técnico de som José Fortes, que se revelaria outro dos vértices determinantes do edifício sonoro do grupo.

Anos depois, numa entrevista ao Se7e, o álbum seria descrito pelo próprio Nuno Rodrigues como representando um episódio de rutura face ao panorama musical do Portugal de 75. Numa outra entrevista, esta ao DN, o músico evocou este álbum como “uma das obras mais de esquerda que se fizeram”, notando que recorriam então a outras formas de observar o mundo. Ou seja, a música não queria “dar cabo do patrão e falar da conta na Suíça”, mas antes, e sobretudo através das letras de António Avelar Pinho, “falar das coisas mas de uma forma mais surrealista”, numa tentativa de “desmontagem da sociedade”. Por seu lado também António Avelar Pinho cegou a comentar o modo como a palavra era usada nas canções do período pós-revolucionários, reconhecendo em muitos a ausência da metáfora. E ele mesmo recordou que, quando nesse período, escrevia sobre música, foi enviado a um Canto Livre, tendo o texto gerado reações indignadas. “Servir levianamente a política acho uma coisa miserável”, comentou anos depois. E na Banda do Casaco procurou outros caminhos para expressar o aqui e o agora de então. 

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