Com formação clássica e um percurso que tinha já inscrito entre os pioneiros da electrónica em terrenos pop (sobretudo pelo trabalho na Yellow Magic Orchestra em finais da década de 70), Ryuichi Sakamoto era já uma figura com visibilidade global quando, na reta final dos anos 80, apresentou um álbum que traduziu não só uma síntese do que era a sua identidade mas também uma capacidade em assimilar os sinais de um tempo em que as músicas do mundo tinham deixado de ser sobretudo rotas de (re)descoberta de tradições musicais dos mais variados cantos do globo para, com outro mediatismo, representar inclusivamente um dos mais vibrantes segmentos da oferta discográfica já com a década de 90 na linha do horizonte. Depois do impacte de “Graceland” de Paul Simon e do estabelecimento de novas editoras como a Real World (de Peter Gabriel) ou Luaka Bop (de David Byrne), a world music respirava uma nova atmosfera pop, que ora gerava êxitos mainstream com nomes como os de Ofra Haza ou Mory Kanté ou dava visibilidade maior a novos lançamentos de grandes músicos como Youssou N’Dour, Salif Keita, Nusrat Fateh Ali Khan, Cesária Évora, Angelique Kidjo ou Baaba Maal, entre outros. Na verdade “Beauty”, de Ryuichi Sakamoto, pode não ser exatamente um disco de world music. Mas, tal como discos que pouco depois surgiram assinados por Jah Wobble ou os próprios Paul Simon ou David Byrne, traduz ecos da presença, com vistas largas, de referências, instrumentos e até mesmo músicos de outras geografias.
Vale a pena posicionar “Beauty” na obra (em construção) de Ryuichi Sakamoto. Depois do tatear de possibilidades em primeiros discos a solo ainda nos anos 70 e de incursões (a solo) pelas electrónicas em álbuns lançados entre 1980 e 81, Ryuichi Sakamoto tinha começado a alargar os horizontes de possibilidades para a sua música experimentando outros instrumentos e caminhos, ao mesmo tempo encetando colaborações com músicos de outras origens. Depois de David Sylvian (com primeiros contactos em singles de 1982 e 83) o seu caminho tinha-o ligado a outras figuras com dimensão pop (ocidental) como Thomas Dolby ou Iggy Pop. Ao mesmo tempo procurava encontrar novas expressões para uma noção de identidade pop japonesa (como fez em “Hidari Ude No Yume”, de 1981) e, logo depois, começou a dar espaço de maior protagonismo ao piano (como se escutou em “Coda”, de 1983). Com o avançar dos anos 80 aposta em episódios que vincam um ecletismo pop, como nos mostrou em “Illustrated Music Encyclopedia” (1984) ou “Neo Geo” (1987). E ao mesmo tempo que o edifício de uma discografia pessoal se ia afirmando, Sakamoto começou a trabalhar regularmente para o cinema, com trabalhos notáveis para Nagisa Oshima, em “Feliz Natal Mr. Lawrence” (1983), ou Berardo Bertolucci, com “O Último Imperador” (1987), tendo este último dado ao músico japonês um Óscar (partilhado com David Byrne e Cong Su).

“Beauty” surge com este historial escrito, gravado e sedimentado. E traduz o momento em que todos estes caminhos se conciliam num exercício de síntese que não só expressou aqui a personalidade do músico como os acima referidos ecos de um tempo em que a música passou a viver com as janelas abertas às brisas vindas de todo o globo. Definido sob matriz pop, “Beauty” valoriza a noção de vistas largas sobre as músicas do mundo ao convocar músicos tão diferentes como Arto Lindsay, Youssou N’Dour, Robert Wyatt, Naná Vasconcelos ou Brian Wilson (sim, o dos Beach Boys), entre uma multidão de colaboradores, com experiências em várias frentes da criação musical. Cedendo frequentemente o protagonismo vocal (Youssou N’Dour brilha em “Diabaram”, Arto Lindsay lê, em português, em “Rose”), Ryuichi Sakamoto é aqui um maestro/compositor, presente como instrumentista em diversos papéis, garantindo a unidade num alinhamento marcado pela diversidade. Do lirismo ambiental de “Rose” ou “Amore” à dimensão pop de “Calling From Tokyo” ou “We Love You”, do piscar de olho a uma ideia de música para cinema em “A Pile of Time” ao apelo de uma música sem fronteiras em “Diabaram”, sem esquecer o vincar das marcas de identidade japonesas em “Romance” ou “Chinsago no Hana” (aqui a continuar uma linha já sugerida na visão de “Okinawa Song” de “Neo Geo”), “Beauty” é obra-prima a reter entre os momentos maiores da discografia de um músico de rara versatilidade.





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