Há momentos que a mitologia pop gosta de recordar. E Brian Eno foi protagonista em alguns deles… É sua a frase que notava que o álbum de estreia dos Velvet Underground terá vendido relativamente poucas unidades quando chegou às lojas (em 1967), mas que certamente todos os que compraram o disco formaram depois uma banda… Mas é também sua a observação que fez quando entrou nos estúdios onde David Bowie então gravava em Berlim, em 1977, mostrando nas mãos um single que tinha acabado de comprar. Não é preciso procurar mais, o futuro está aqui, disse, mostrando a todos os que ali estavam uma cópia de “I Feel Love” de Donna Summer. Convenhamos que tinha razão e não só o futuro da pop como o da relação das electrónicas com a música de dança tinham de facto ali uma visão inovadora e ousada, contagiante e carregada de possibilidades. Se a canção abriu horizontes, ela mesma conheceu depois outras vidas, uma das mais surpreendentes tendo surgido com os Curve, em 1992, num CD triplo que celebrava os 40 anos de vida do NME. Além de uma remistura de Patrick Cowley para a gravação da própria Donna Summer (carregada de marcas de personalidade do músico e produtor norte-americano), a história de “I Feel Love” conheceu ainda um outro episódio marcante quando, em 1984, os Bronski Beat apresentaram uma versão deste clássico a fechar o alinhamento do seu álbum de estreia.

Contemporâneos do momento em que os New Order e os Dead or Alive encontravam pontes de diálogo entre a canção pop e as formas de música de dança e antecessores das visões igualmente marcantes dos Pet Shop Boys na integração de elementos hi-nrg e outras heranças do disco na canção pop dos anos 80, os Bronski Beat são hoje, estranhamente, um nome relativamente esquecido, com obra inconsequente após o afastamento do vocalista original (Jimmy Sommerville) e com ponto final definitivo na sequência do desaparecimento trágico do seu fundador, Steve Bronski, em 2021. Cedo ficou, todavia, claro que a ideia do grupo não se limitava à postura ativista que cedo vincaram, aliando a toda uma marcante ação política uma visão musical que promoveu o que então eram ainda pouco frequentes expressões de visibilidade pop para formas e sons que respiravam sobretudo na cultura da noite. A voz em falsete de Jimmy Sommerville (que dividiu opiniões), o recurso às eletrónicas como ferramentas de trabalho, uma produção atenta a uma necessidade de manter vivo o viço das estruturas rítmicas e uma mão cheia de belíssimas canções pop completavam os ingredientes de “The Age Of Consent”. O álbum incluia, além de “Smalltown Boy” e “Why?” uma versão de “It Ain’t Necessairly So” de Gershwin e uma outra de “I Feel Love” momentos que expandem os horizontes de um alinhamento de vistas largas. Estes foram, de resto, os quatro singles dali extraídos, o quarto dos quais, correspondendo à versão do clássico de Donna Summer, conhecendo agora uma nova vida numa edição em CD Single com expressão também nas plataformas de streaming. 

A nova edição corresponde a um novo episódio de exploração do arquivo dos Bronski Beat. Junta por um lado as versões e remisturas que surgiram em formatos de 45 rotações em 1985 quando “I Feel Love” surgiu numa nova leitura que então chamava ainda Marc Almond a bordo. Dos singles e máxis (houve dois, o segundo acrescentando uma “Cake Mix” e uma “Fruit Mix”) chegam não apenas várias misturas para o próprio “I Feel Love” como as canções “Puit d’ Amour”, “Potato Fields” e “Signs and Wonders”, afinal nada mais que aquela boa tradição dos velhos 45 rotações que, nas suas faces B, permitiam aos artistas e bandas apostar em propostas mais diferentes e desafiantes. Este novo CD single, que usa na capa uma foto manipulada dos Bronski Beat e Marc Almond que em tempos foi usada numa edição em formato de picture disc, acrescenta ao alinhamento (de 10) faixas uma maquete (inédita) anterior às sessões do álbum e também “First Church (Feel More Love)”, uma faixa nascida durante ensaios em estúdio. E ainda um outro inédito: “I Feel Love (Promo Dub Mix)”.

“I Feel Love”, dos Bronski Beat, com Marc Almond, está disponível em CD Single e nas plataformas de streaming numa edição da London Records.

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