A ZTT Records foi espaço de afirmação para uma visão estética de uma equipa liderada por Trevor Horn e moldada por lógicas de comunicação desenhadas pelo jornalista Paul Morley. Foi casa de vários artistas e vários discos, tendo como “santíssima trindade” as edições em 1984 de “Who’s Afraid of The Art Of Noise” dos Art Of Noise e “Welcome To The Pleasuredome” dos Frankie Goes To Hollywood e, já em 1985, o álbum de estreia dos Propaganda, “A Secret Wish”. Este último quarteto alemão já tinha chamado atenções em 1984 com um épico de alma sinfonista em “Dr. Mabuse”, single de estreia que recebeu então um dos primeiros telediscos assinados por Anton Corbijn. Nascidos em 1982 em Düsseldorf, juntando, entre outros, um elemento do colectivo industrial Die Krupps e um músico com formação clássica, os Propaganda chegaram à ZTT pelas mãos de Paul Morley, acabando o seu álbum por ser contudo produzido por Steve Lipson, um dos engenheiros de som da equipa de Trevor Horn que, então, tinha em mãos a gravação do álbum de estreia dos Frankie Goes To Hollywood, a banda de maior sucesso da editora.
Lipson seguiu contudo as regras da casa e assegurou que, em “A Secret Wish”, os Propaganda criassem um monumento pop feito com as novas ferramentas electrónicas e uma elaborada visão sinfonista. Depois da estreia em “Dr Mabuse” o álbum teve como principal episódio de comunicação por alturas do seu lançamento no single “Duel” que propunha uma ideia de canção pop dotada de uma rara capacidade em seduzir os mais atentos às linhas da frente da criação indie, num diálogo fluente com os sinais do tempo do gosto pop(ular). Olhando para o alinhamento do álbum, a escolha de um terceiro (e derradeiro) single a ser extraído de “A Secret Wish” apontou (numa lógica natural de continuidade) a “P-Machinery” que alargou a resposta positiva de vários públicos europeus à pop desafiante que os Propaganda então propunham. A canção manteve as contribuições de David Sylvian, músico que havia sido desafiado a produzir o álbum, tendo declinado o convite mas que mesmo assim chegou a trabalhar pontualmente com o grupo alemão. E conheceu, logo na ocasião da sua edição em single, um ponto de vista alternativo (podemos dizer “variação”) em “Frozen Faces” que se escutava no lado B do 45 rotações.

Agora, 40 anos depois, e um ano passado sobre uma edição semelhante que tinha “Dr. Mabuse” na mira das atenções (num álbum com o título “Die 1000 Augen Des Dr. Mabuse”), eis que surge “P-Machinery (The Alpha/Beta Definition)”, um novo mergulho pelo arquivo dos Propaganda, reunindo nas duas faces do vinil algumas entre as várias versões, misturas e visões sobre “P-Machinery” e “Frozen Faces”, permitindo a criação de um olhar alargado sobre o que foi o terceiro single do grupo (inclusivamente no departamento das imagens, com uma coleção de polaroids tiradas durante a rodagem do teledisco). A seleção de versões e o seu alinhamento resultam como obra maior, tal como sucedera com o disco de 2024 focado em “Dr Mabuse”. Agora só falta mesmo um terceiro capítulo dedicado a “Duel”. Talvez no Record Store Day de 2026…
“P-Machinery (The Alpha/Beta Definition)”, dos Propaganda, está disponível num LP da ZTT / Universal criado por ocasião do Record Store Day.





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