Na viragem dos anos 60 para os 70 Jean Michel Jarre passou três anos junto do Groupe de Recherches Musicales (GRM) dirigido por Pierre Schaeffer e aprofundou ali o seu interesse pela exploração da música eletrónica. Foi nesse período que lançou um primeiro single (com os temas “La Cage” e “Erosmachine”) e montou, na cozinha da sua casa, um primeiro estúdio. Começou a fazer música para teatro, bailado e cinema e depois trabalhou, sobretudo como autor de canções, com figuras da pop como Françoise Hardy ou Christophe. E em 1973, apesar de ainda longe da visão mais pessoal que acabaria por registar em “Oxygène”, editou dois discos, ambos por vezes ignorados quando se traça um olhar panorâmico sobre a sua obra. Um deles foi a banda sonora de “Les Grands Brûlées”, filme de Jean Chapot para o qual desenvolveu um tema, variações e uma série de composições complementares e que, já no século XXI, conheceu reedição em suporte de CD. O outro, até aqui nunca reeditado (e por isso transformado numa preciosidade para colecionadores) era o álbum “Deserted Palace” que agora, 52 anos após o seu lançamento, regressa numa nova prensagem em vinil.

Criado com recurso ao material que então tinha em casa (ARP, EMS Synthi AKS, um sintetizador VCS 3, um orgão Farfisa e percussão), “Deserted Palace” exibe formas relativamente simples, com arranjos ainda pouco elaborados, explorando sobretudo caminhos para a melodia e aproveitando as características tímbricas dos sons. O disco foi por vezes apresentado como uma coleção de “música de biblioteca” com peças que poderiam assim ser destinadas a utilização em programas de rádio ou televisão, campanhas de publicidade ou cinema. Na verdade o projeto nasceu de uma encomenda feita ao editor Francis Dreyfus, pedindo peças musicais que pudessem ser usadas em espaços públicos como bibliotecas ou aeroportos. O projeto aterrou nas mãos de Jean Michel Jarre, recentemente assinado pela sua editora, que depois juntou algumas dessas composições nas duas faces de um LP. Apesar da origem do projeto, os títulos das faixas (todas instrumentais) acabam por sugerir linhas para uma possível narrativa…

O disco teve edição em França em 1973 e no mesmo ano surgiu nos EUA no catálogo da Synchro-Fox Library Of Recorded Background Music, uma editora de música de “biblioteca”. Agora regressa num lançamento pela Transversales, apresentado numa edição limitada em vinil, com o som restaurado e remasterizado. A edição recupera também a sua capa original. Esta é a segunda edição da Transversales dedicada ao arquivo do músico francês, sucedendo a uma reedição de “Les granges brûlées” lançada em 2023.

“Deserted Plalace”, de Jean Michel Jarre, está disponível em LP numa edição limitada da Transversales.

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