O que lhes vamos mais pedir? 55 anos depois de um primeiro álbum que, mesmo tendo então sido coisa de impacte discreto, os Sparks mostravam já em 1970 sinais de uma identidade que, de facto não teve nunca par na história da música pop. Marcaram depois esta mesma história com títulos marcantes em etapas (e com sonoridades) bem distintas ora quando escutaram ecos do glam rock nos dias de “Kimono in My House” (1974), quando chamaram Giorgio Moroder a estúdio para criar “Nº1 in Heaven” (1979), quando se reinventaram depois de uma travessia do deserto em “Gratuitous Sax & Senseless Violins” (1994), quando assinaram uma visão pop minimalista (mas de alma sinfonista) em “Lil’ Beethoven” (2002) ou quando aceitaram dividir o protagonismo com os Franz Ferdinand em “FFS” (2014).
Em todos estes momentos os Sparks nunca deixaram de soar a… Sparks. Nem sempre com “êxitos” de grande dimensão. Mas foram dos primeiros a propor uma revisão integral da sua obra ao vivo (numa residência histórica no londrino Shepherd’s Bush Empire). E os seus mais recentes álbuns de originais – “Hipopotamus” (2017), “A Steady Drip Drip Drip” (2020) e “The Girl Is Crying in Her Latte” (2023) – chegaram todos ao Top 10 no Reino Unido (o país que sempre os reconheceu com mais entusiasmo do que a sua América natal). Agora, um ano depois da versão para Ópera da música criada para o filme “Anette” de Leos Carax (disco de edição limitada decorrente de gravações de arquivo já com mais de 10 anos), eis que surge mais um álbum de estúdio.

E volto a perguntar: o que lhes vamos mais pedir? Não só criaram e vincaram uma identidade. Como souberam trabalhar de forma muito pessoal as linguagens da pop, do rock, do disco, isto sem esquecer aquela visão minimalista da canção e até mesmo o invulgar (e delicioso) exercício de revisão das suas próprias canções no belo “Plagiarism” (1997). “MAD!”, que representa o 28º álbum desta longa e suculenta discografia, segue por pistas semelhantes às do álbum de há dois anos, mostrando sobretudo a sequência inicial de canções rotas de reencontro com as suas memórias mais remotas. Felizmente o “bicho-carpinteiro” não os abandonou e, às tantas, o disco descola para trajetos mais desafiantes, ora no sinfonista “I-405 Rules”, o operático “A Long Red Light” ou o hino que encerra o alinhamento com “Lord Have Mercy”. Tal como entre os títulos mais recentes do grupo não há aqui sinais de revolução. Mas, pergunto mais uma vez ainda: o que lhes vamos mais pedir? Na verdade já fico feliz com uma boa nova coleção de canções. É o caso.
“MAD!”, dos Sparks, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais , numa edição da Transgressive.





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