Durante anos este era dado como o mais improvável dos reencontros. Na verdade um fim nunca tinha sido sequer enunciado. Depois da edição de “Visitors” seguiram-se novas sessões em estúdio das quais chegaram a surgir dois novos singles em 1982 (“The Day Before You Came” e “Under Attack”), ambos reunidos num ‘bem of’ que então celebrou dez anos de atividade. Na verdade não se esgotaram nessas quatro novas canções (havia os lados B “Cassandra” e “You Owe Me One”) o lote de temas registados nessas sessões que tiveram lugar nesse mesmo ano. E em 1993, no alinhamento de “More Abba Gold”, surgiu a canção “I Am The City” vinda deste mesmo tempo… Mas na verdade, depois do lançamento desses singles e álbum, havia em volta dos quatro elementos dos Abba uma agenda mais pessoal do que pensada em grupo. Frida tinha acabado de editar um álbum produzido por Phil Collins. Agnetha preparava um primeiro álbum em inglês (que surgiria em 1983). E a dupla Benny e Björn trabalhava no seu primeiro musical, “Chess”. Mas o que aconteceu então ninguém esperava. E o que parecia ser uma escapada pontual (como sucedeu com os Duran Duran em 1985) acabou por se prolongar por anos a fio, sem que nunca houvesse a comunicação de uma separação. 

O tempo foi passando. Ao mesmo tempo que nascia um EP de versões dos Erasure a banda de tributo Björn Again ganhava algum mediatismo (vimo-los na Expo 98), a compilação “Abba Gold” gerou um fenómeno de reencontro com as canções dos Abba. Em 1999 estreava o musical “Mamma Mia”, que criava uma narrativa a partir de canções de vários álbuns e singles do grupo sueco. Em 2004 fizeram discretos cameos num vídeo (protagonizado por marionetas) que celebra os 30 anos da vitória de “Waterloo” na Eurovisão. Todos estes episódios sublinhavam a resiliência do legado dos Abba… E eis senão quando começam a surgir rumores de algo novo. Primeiro falava-se de um especial para televisão… Depois sobre a eventualidade de uma ou duas novas canções para esse mesmo evento… Na verdade o projecto evoluiu para um modelo inovador de espetáculo e, além das duas canções inéditas, o grupo acabou mesmo por criar um novo álbum (“Voyage”, editado em 2021), surgindo em Londres, em maio de 2020, “Abba Voyage” que acaba de assinalar três anos de vida com casa sempre cheia.

Este é de facto um espetáculo único e desconcertante. Único pelo ineditismo tecnológico envolvido. Desconcertante porque cria de facto a ilusão de estarmos a ver, em palco… os Abba. Ao invés de espetáculos holográficos já antes criados para figuras que já não estão entre nós (como Maria Callas), esta proposta contou com o envolvimento de facto dos quatro elementos dos Abba que foram submetidos a sessões de digitalização dos seus movimentos, criando um volume de informação que permitiu a criação de entidades digitais (os tais “abbatars”) que assim se movem com um sentido inesperado de “realismo”.  Para acolher os “abbatars” foi construída uma sala que, igualmente munida de dispositivos tecnológicos, permite não apenas criar a “ilusão” da presença em cena dos quatro músicos mas a própria ideia de experiência (literalmente) imersiva, já que tanto o teto da sala como três das paredes recorrem a dispositivos de luz e geração de imagens que alargam o show para lá da ideia mais tradicional de palco. A tudo isto junta-se a construção de um alinhamento que prevê pontuais momentos de comunicação com a plateia, um acoplamento de canções que doseia velhos clássicos, alguns temas menos óbvios e duas das “novas” canções. E com o bónus, ocasional, e nunca comunicado, da eventual presença de um ou outro dos quatro Abba de quando em vez na própria sala, como espectadores, tal como sucedeu esta semana, quando Benny e Anni-Frid ali estiveram para celebrar o terceiro aniversário de “Abba Voyage”. 

Vi recentemente o espetáculo. E, não soubesse eu da história, quase teria caído na ilusão de ter visto ali os Abba… Com o seu look de finais dos anos 70, é certo. E acompanhados de facto por uma banda que toca ao vivo. Mas a criação da experiência é tal que embarcamos numa ideia de reencontro… Será isto o principio de uma nova era na história do espetáculo? Talvez. Mas creio que só com um artista com capacidade de gerar um público que encha salas meses a fio se pode, para já,  desenhar um conceito que de barato nada tem. No fundo, o volume do investimento e a adesão popular atestam a longevidade de uma obra de facto com rara dimensão de alcance na história da cultura popular.

Vale a pena sublinhar que o espetáculo foi criado com os próprios Abba… Já um show “digital” de um Mozart ou um Louis Armstrong, isto para não falar num Elvis ou num qualquer outro ícone da cultura pop, levantaria todo um debate ético que aqui não se coloca. Porque “Abba Voyage” nasce de uma ideia do próprio artista, criada por e com os quatro músicos. Mas sim… essa outra frente de possibilidades pode gerar uma discussão que vale a pena encarar quanto antes.

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