Quando, em 1973, Bryan Ferry editou um primeiro álbum a solo, a sua proposta era claramente uma de contraste face ao trabalho que estava a desenvolver nos Roxy Music (que por essa altura tinham assistido à saída de cena de Brian Eno, o que teve como consequência um reforço do desenho criativo dos rumos do grupo segundo a visão do próprio vocalista). Entre “These Foolish Tings” (1973) e “Another Time, Another Place” (1974) Bryan Ferry chamou à sua voz a transformação de canções dos outros, ora reinventando Bob Dylan ora os Beatles, ora os Rolling Stones ou Smokey Robinson, entre muitos mais. Em 1976, já em tempo de pausa no percurso do grupo, “Let’s Stick Together” juntou composições do próprio Ferry a um novo lote de versões (entre as quais vários remakes de canções dos próprios Roxy Music). E logo a seguir, entre “In Your Mind” (1977) e “The Bride Stripped Bare” (1978) o cantor tomou a pulso o rumo dos acontecimentos que acabam por definir uma etapa de transição para o retomar do percurso dos Roxy Music, que surgem moldados por novos desafios e contaminações em “Manifesto” (1979), alcançando um derradeiro patamar entre “Flash and Blood” (1980) e “Avalon” (1982), definindo aqui, ao lado do produtor Rhett Davies, uma noção elegante de uma pop sofisticada rica numa cenografia que acolheu que nem uma luva a presença de uma voz mais tranquila e suave, fixando ali um registo que acabaria por definir os caminhos futuros de Bryan Ferry.

O ponto final na obra dos Roxy Music que se seguiu à digressão que levou à estrada o magnífico “Avalon” devolveu Bryan Ferry ao seu percurso em nome próprio que, salvo a reunião do grupo (para palcos apenas), alguns anos depois, tomou definitivamente a condução da sua discografia. Novas canções começaram a surgir poucas semanas após o ponto final em grupo. E na hora de voltar a estúdio, Bryan Ferry chamou novamente para o seu lado o produtor Rhett Davies com quem fez nascer um álbum a solo que acabou por nos apresentar um sucessor direto do álbum de 1982 dos Roxy Music. Sob uma orientação estilística semelhante, retomando o mesmo perfil sofisticado na produção e uma pose requintada e polida (da imagem à voz), Bryan Ferry fez de “Boys and Girls” um herdeiro direto da etapa final vivida com os Roxy Music, que os tinha elevado a um patamar de reconhecimento global. Canções como “Slave To Love”, “Don’t Stop The Dance” e “Windswept” sugeriram uma lógica de continuidade, sendo escolhidas como rosto (com edições em single) de um álbum que contou com colaborações de notáveis como Nile Rodgers, David Gilmour, Mark Knopfler ou Omar Hakim. 

“Boys and Girls” fechou contudo a trilogia que uniu Bryan Ferry a Rhett Davies que moldou grande parte da obra posterior do músico. Contudo, os discos seguintes ora experimentaram aqui e ali novos desafios (entre os quais a revistação de ecos dos anos 20 e 30 do século XX) ora chamaram velhos colaboradores, nomeadamente antigos elementos dos Roxy Music. O saxofonista Andy MacKay regressou logo no seguinte “Bête Noite” (1987). O guitarrista Phil Manzanera voltou em “Mamouna” (1994). E até o próprio Bryan Eno regressou (pontualmente) em “Frantic” (2002).

One response to “Bryan Ferry “Boys and Girls” (1985)”

  1. A obra do Bryan é magnífica e o artigo reproduz com fidelidade seu caminho. Em particular, gosto mais do Ferry solo e os trabalhos em As time Goes by, Dylanesque e Frantic. Parabéns pelo post. Abraço.

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