O impacte de “Autobahn” (editado em 1974) e as importantes mudanças na imagem do grupo durante a digressão que se sucedeu apresentavam, em 1975, uma banda claramente modificada. O sucesso e as suas consequências financeiras permitiram equipar o estúdio Kling Klang e assim prescindir da necessidade de outros locais para trabalhar e gravar nova música. Ao mesmo tempo, a regularidade na relação com Karl Bartos e Wolfgang Flur fixavam a formação dos Kraftwerk naquele que seria o seu line up “clássico”, que se manteria fixo até 1986, assinando assim o registo da etapa mais substancial da sua discografia. “Radio-activity”, lançado a 30 de outubro de 1975, seria o primeiro fruto destas mudanças.
O disco, que musicalmente assinala uma etapa intermediária na progressão entre as ideias sugeridas em “Autobahn” (1974) e a afirmação maior de uma linguagem pop, que seria definida entre “Trans Europe Express” (1977) e “The Man Machine” (1978), é também expressão do desejo em elaborar uma peça conceptual, emergindo a ideia de um interesse em refletir sobre o papel da comunicação. Em concreto, a comunicação via rádio.
Como em muitas outras criações dos Kraftwerk, o disco assinalava um ponto de diálogo entre uma ideia de nostalgia (evocando esse meio que havia tido um papel protagonista antes da chegada da televisão) e, ao mesmo tempo, colocava em cena ideias do presente. Estas ganham forma numa das primeiras manifestações musicais de um ceticismo perante a cada mais presente energia nuclear, sugerindo muitas das composições uma duplicidade de leituras. Uma ambiguidade. O tema-título é, de resto, um exemplo claro dessa dupla face, com uma possível leitura sobre a rádio como meio de comunicação, mas ao mesmo tempo aludindo à descoberta do casal Curie, falando em concreto de radioatividade, cabendo ao verso “it’s in the air for you and me” o papel de sublinhar essa carga aberta de significados, que ora conhece argumentos no primeiro sentido num outro tema como “Airwaves” ou, no segundo, em “Geiger Counter”. Já em “Radio Stars”, a dupla leitura está no confronto entre um título que sugere a ideia de estrelas da rádio e o universo que a música nos dá a escutar depois, projetando-nos mais longe, pelo universo.


A associação dos Kraftwerk a uma tomada de posição política quanto à energia nuclear não foi devidamente descodificada, tendo uma foto promocional que então tiraram frente a uma central na Holanda gerado alguns equívocos. O tempo acabaria por deixar as coisas mais claras quando, por exemplo, o grupo tomou, anos mais tarde, partido em campanhas concretas, apresentando uma abordagem menos ambígua (e de alerta para com os perigos lançados sobre o ambiente) na nova versão de “Radio-Activity” incluída no álbum de 1991 “The Mix” e que ainda hoje é a que prevalece nas suas atuações ao vivo.
Musicalmente é um disco também de passagem de um patamar do que até recentemente seria experimental rumo a uma mais firme expressão das linguagens da pop. Na verdade há no álbum apenas duas canções no mais clássico sentido da palavra. Uma delas corresponde ao tema-título, a outra o magnífico “Antenna”, desde sempre injustamente secundarizado (foi inclusivamente escolhido como o lado B para o single “Radio-Activity”).
Há outros momentos com participação vocal, mas em todos eles a voz é entendida sem a lógica verbal mais habitual na canção pop, sugerindo antes a presença humana num quadro instrumental dominado pelas electrónicas – com uma série de novos instrumentos recentemente adquiridos, entre eles um Vako Orchestron – fazendo deste disco o primeiro na obra dos Kraftwerk sem a presença dos instrumentos analógicos (como por exemplo a flauta) que até aqui haviam surgido nas suas gravações.
De novo há também aqui a estreia da voz “robótica” que escutamos em “The Voice of Energy” – tema que faz a ponte para “Antenna” na abertura da face B do álbum – mostrando o registo modificado da voz humana que a partir de então o grupo passa a usar nas suas apresentações em concerto.
A capa original do disco usava a imagem de um aparelho de rádio alemão usado nos anos 40. Um modelo aprovado por Goebbels que tinha um limite de captação até 200 km, tentando impedir a escuta de propaganda aliada. A mais recente reedição, com som remasterizado, optou pelo símbolo da radioatividade, que desvia agora o foco da leitura para as questões ambientais que o álbum então também levantou.




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