Se bem que hoje muitos o possam conhecer pelo que ouviram em cinema, Jóhann Jóhansson um passado rico em outros acontecimentos que vale a pena não esquecer. E entre a pop eletrónica dos Lhooq (dupla que lançou um único álbum em 1998), as experiências indie dos Apparat Organ Quartet (que a dada altura abandonou, mas que integrava nos tempos do belíssimo disco de estreia editado em 2002) e os primeiros discos editados a solo há vários motivos para algumas incursões na memória com episódios de boa (re)descoberta. Editado em 2006, o álbum “IBM 1401 – A User’s Manual” representou então a sua estreia no catálogo da 4AD, o que lhe deu primeiros momentos de maior exposição global. Mas há um antes e um depois em toda esta história, que agora continua com a edição de um disco da pianista Alice Sara Ott.

Natural de Reykjavík, onde nasceu em 1969, Jóhann Jóhansson começou por estudar piano e trombone, ao mesmo tempo que procurava um futuro universitário na área das letras até que, em meados dos anos 90 noventa, iniciou um percurso profissional na música como guitarrista. Começou, aos poucos, a alargar as suas esferas de interesse enquanto músico a outras rotas e destinos, reflectindo a sua obra a solo sinais de uma progressiva aproximação para os espaços de encontro da música eletrónica com a música orquestral que definiria o corpo central da sua obra, tanto nos discos de estúdio que foi assinando como em trabalhos para cinema. E aqui desenvolveu uma ligação particular com a obra de Denis Villeneuve. Tinha recentemente chegado ao catálogo da Deutsche Grammophon, para o qual começara a trabalhar as edições da sua música para cinema e também novas experiências autorais, como a que em 2016 apresentou em “Orphée”. Dois anos depois a notícia inesperada da sua morte, com apenas 48 anos, colocou um ponto final precoce a um compositor que continuava a alargar horizontes. Desde então, mesmo assim, vários discos póstumos têm revelado obras que ainda não tinha gravado ou novas perspectivas sobre a sua música.

A pianista alemã Alice Sara Ott (nascida em 1988) nunca chegou a conhecer Jóhann Jóhannsson. Mas desde cedo teve por ele uma grande admiração, que agora se manifesta na forma de um álbum no qual ela mesma, sem nada mais senão um piano, caminha por entre uma série de obras do compositor islandês, num alinhamento onde tanto encontramos música criada para o cinema como também incursões por álbuns históricos como “Englabörn” ou “Orphée”. Para abordar estas transcrições para piano, todas elas a ter aqui as suas primeiras gravações, Alice Sara Ott procurou amigos e colaboradores de Jóhann Jóhannssonm para assim tentar conhecer um pouco melhor não apenas a música mas sobretudo quem era o seu compositor. E, como ela mesma chegou já a explicar, procurou assim compreender melhor a arquitetura interior destas peças, as suas formas e, no fundo, a linguagem de Jóhann Jóhannsson, descrevendo esse processo como se tivesse conseguido dialogar com ele mesmo. 

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