Quem diria que o rosto da nota de dez dólares ganharia outra visibilidade e até mesmo reconhecimento por causa de um musical? “Hamilton”, de Lin-Manuel Miranda já conquistou um lugar de relevo na história do teatro musical. Fê-lo pela escrita, pela música, pela visão projetada no palco e pela diversidade refletida num elenco que projeta a América de hoje na elite política e militar de uns jovens Estados Unidos da América que então nasciam (a trama passa-se nos tempos da independência). Mas, mesmo tendo apenas 35 anos quando levou “Hamilton” aos palcos, Lin-Manuel tinha já uma história de reconhecimento (que entretanto juntou episódios de sucesso no cinema).
Lin-Manuel Miranda nasceu em Nova Iorque em 1980 numa família com ascendência porto-riquenha. De resto o seu nome, Lin-Manuel, vem de uma referência feita num poema sobre a guerra no Vietname, um poema de Jose Manuel Torres Santiago, de Porto Rico. Era ainda aluno de escola e já compunha pequenas peças musicais. E estava no segundo ano do seu curso universitário quando fez os primeiros esboços para aquele que seria o seu primeiro musical. Chamou-se “In The Heights”, teve estreia no Conneticut em 2005, depois conheceu uma residência off-Broadway e chegou à Broadway para não deixar ninguém indiferente…
“In The Heights” é uma história passada em Washington Heights, na zona norte de Manhattan. Tem como protagonistas uma comunidade dominada por emigração latina, sobretudo vinda da América Central, focando atenções numa segunda geração já criada em solo americano. No centro da trama está Usnavi, dono de uma pequena loja num bairro cujo quotidiano nos é apresentado numa sucessão de dias de tórrido calor, não faltando um apagão e fogo de artifício. Entre o sonho de reencontrar as raízes num regresso à República Dominicana e os vários cenários de “casa” com que ele mesmo e vizinhos se confrontam, a história evolui ao longo de duas horas, durante as quais a cor da música latina entra num jogo de contrastes com episódios de introspecção, conflito ou questionamento.

Musicalmente “In The Heights” tem o hip hop no tutano da música, mas também a salsa, o merengue e outros temperos latinos igualmente em evidência. E à frente do elenco, no papel do protagonista Usanavi, estava, na produção original, o próprio Lin-Manuel. Foi um sucesso. E dos 13 Tonys para os quais foi nomeado arrebatou quatro, entre os quais Melhor Musical e Melhor Música Original. Ganhou ainda um Grammy… E mais tarde conheceu até uma adaptação ao cinema.
Numa encenação dinâmica de Sissi Martins, que tira partido de uma cenografia de precisão cirúrgica, que multiplica de forma engenhosa uma série de elementos que conseguem amplificar a diversidade dos espaços, “In The Heights” conhece agora uma primeira versão oficial portuguesa (com adaptação de João Sá Coelho) numa produção de Martim Galamba que está em cena no Teatro Variedades até 3 de maio.
Elenco muito equilibrado, seguro nas vozes e veloz nas coreografias (de Marco Mercier) que servem a pulsação sobretudo das cenas de festim com travo latino. Em palco, sob a silhueta da ponte George Washington, encontramos Carolina Amarais, Catarina Clau, Gonçalo Rosales, Gustavo Ramos, Kiko Monteiro, Luísa Cruz, Ludy Guimarães, Margarida Silva, Marta Mota, Mimi Mourato, Pedro Nuno, Pedro Razori, Pessoa Júnior, Renato Nobre, Sara Claro e Tiago Retrê e, a seu lado, em pose discreta, mas de presença sonora bem evidente, um grupo de seis músicos que asseguram, ao vivo, a execução de toda a banda sonora.
Foto principal: Estelle Valente / Teatro Variedades e Capitólio




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