Foi como um último momento de partilha. Uma despedida tranquila, olhada de perto por três câmaras, num estúdio… Janelas possíveis para um derradeiro episódio de comunicação entre um compositor e aqueles que, anos a fio, com ele foram contactando, sobretudo, através da música. No outono de 2022, sentado, ao piano, sem olhar para o relógio que, para si avança, em acelerado sentido oposto ao avançar habitual das horas, Ryuichi Sakamoto caminhava tranquilamente entre 20 peças que traduziam, sem uma arrumação cronológica nem mesmo uma agenda competiste, um olhar sobre o que nos tinha dado a escutar ao longo de toda uma carreira. 

Da memória das visões lançadas quando integrava a Yellow Magic Orchestra (de quem evocou um arranjo para piano de “Tong Poo”) às peças que fizeram história no cinema de nomes como Nagisa Oshima ou Bernardo Bertolucci, passando pelos últimos álbuns de estúdio (“Async” e “12”), estreando ainda peças nunca antes apresentadas neste formato para piano solo (como “The Wuthering Heights”) ou até mesmo inéditos como “For Jóhann” (um tributo ao islandês Jóhann Jóhannsson) e “BB” (dedicado a Bernardo Bertolucci), Ryuichi Sakamoto partilhou ali, connosco, por uma última vez, o que em tantas ocasiões tinha feito em disco ou nos muitos concertos e recitais que deu. Candura, beleza, grande música.

Agora, dois anos volvidos sobre o filme que nasceu naquela mesma ocasião (assinado pelo seu filho Neo Soro) e do lançamento da respetiva música em suporte digital, eis que “Opus” pode chegar a um gira-discos ou a um leitor de CD, em novos lançamentos que assim confirmam que esta é uma discografia que ainda não atingiu um ponto final. 

“Opus”, de Ryuichi Sakamoto, está disponível em 4LP ou 2CD num lançamento da Commmons.

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