Na década de 80, ao mesmo tempo que óperas como “Satyagraha”, “Akhanten” ou “The Civil Wars” abriam caminho à exploração das potencialidades da música orquestral, Philip Glass manteve ainda firme um trabalho mais próximo dos alicerces da sua música, sobretudo no gosto em manter ativo o seu ensemble e, consequentemente, a presença de teclados eletrónicos em diálogo com outros instrumentos. Foi assim nas bandas sonoras que criou para os filmes de Gofrey Reggio “Koyaanisqatsi” (1982) e “Powaaqatsi” (1988), assim como para o álbum “Glassworks” (1982). Apesar de não ter conhecido o impacte de álbuns contemporâneos como “Dancepieces” (1987) ou “Solo Piano” (1989), uma primeira gravação de “1000 Airplanes On The Roof”, com interpretação do Philip Glass Ensemble e contando com a voz de Linda Rondstat (que colaborara recentemente em “Songs From Liquid Days”) surgiu em disco em 1989 no catálogo da Virgin Records. Mesmo discreta, a edição fixou assim ecos de linguagens às quais Philip Glass regressaria poucas vezes daí em diante, com raras exceções em “The Witches of Venice” ou na ópera de câmara “Monsters Of Grace”.

Peça de teatro, de apenas um acto, com música de Philip Glass e texto David Henry Hwang, “1000 Airplanes On The Roof” é um monólogo que conta a história de um ser humano (de nome “M”) que tem encontro com alienígenas. O texto envolve viagens no espaço e no tempo e lança o desafio de ir para além dos limites habituais da percepção. É na verdade uma história tão invulgar e incrédula que, quando “M” regressa à Terra, ninguém acredita no que conta. A peça teve estreia num hangar do aeroporto de Viena 1988, conhecendo depois produções em Filadélfia, Boston, Chicago, Nova Iorque e Toronto. Em 1990 Integrou a programação da capital europeia da cultura desse ano (em Glasgow). E depois disso quase desapareceu…

E assim foi até que o Third Angle New Music, um ensemble de Portland, no Oregon, devolveu “1000 Airplanes On The Roof” à vida em 2023 no Evergreen Aviation & Space Museum, 2023 (no Oregon), com Nikolas Caoile a dirigir e chamando Ithica Tell para vestir a pele de “M”. Da experiência em palco nasceu a ideia de fixar uma vez mais em disco esta obra (quase esquecida) de Philip Glass. E desta vez, ao invés da edição de 1989, que tinha apenas registado o instrumental e vocalizações, a nova gravação oferece a experiência completa. Na verdade até nos dá um dois em um, já que a versão em CD propõe um disco duplo que mostra no CD1 a peça na íntegra (com música e a voz de Ithica Tell), cabendo ao CD2 a versão instrumental. Estas versões surgem como álbuns separados nas plataformas digitais. O “melodrama”, como o próprio Philip Glass descreveu, lembrando aqui o reencontro com uma forma clássica das artes do palco, juntando texto e música, tem assim uma segunda vida. Como curiosidade vale a pena lembrar que, na produção original (que teve o próprio Phillip Glass na sua única experiência como encenador) o papel de “M” coube a Patrick O’Connell, ou seja, o pai de Billie Eilish.

“1000 Airplanes On The Roof”, de Philip Glass, numa nova gravação pelo Third Angle New Music, com Ithica Tell, está disponível em 2CD e nas plataformas digitais numa edição da Orange Mountain Music. 

Este disco estará em destaque na próxima edição do “Gira Discos”, domingo, 12 de abril, pelas 22h00 na RTP Antena 2. O programa estará disponível antes dessa data na plataforma RTP Play (acessível através deste link).

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