Corpo Diplomático “Música Moderna” (1979)

Em inícios de 1979 notavam-se discretos sinais de agitação em Lisboa. Sob o breve, localizado, mas marcante impacto do punk em solo português, os Faíscas mudavam de direcção. Optavam por abraçar novas formas que começavam a ser descritas como new wave. E surgiam assim transformados no Corpo Diplomático, grupo que acabaria, de certa maneira, por encetar uma nova forma (chamou-se-lhe “moderna”) de encarar a invenção pop/rock em português.

No Corpo Diplomático encontrávamos ex-Faíscas – Pedro Ayres Magalhães, Paulo Pedro Gonçalves, Emanuel Ramalho, Rui Freire – aos quais se juntavam, então o teclista Carlos Maria Trindade e o vocalista Carlos Gonçalves, que se apresentava como Ultravioleta. A música mostra sinais da primeira tentativa de Pedro Ayres Magalhães em transformar uma ideia em conceito (estratégia que, depurada, mais tarde ganharia novas expressões nos Heróis do Mar e, também, Madredeus).

O Corpo Diplomático teve vida breve, editando apenas um single e um álbum. Através de António Sérgio, líder da mensagem punk no éter nacional, o grupo chegou ao contacto da editora Nova (que, na época, representava em Portugal o catálogo da inglesa Stiff Records, um dos mais agitados cardápios da new wave). E com António Sérgio e João Henrique como produtores, entraram em estúdio. 

Música Moderna – assim se chamou o álbum – surgiu como expressão clara das intenções de um tempo de mudança na música pop/rock em Portugal. A irreverência herdada do punk manifestava-se num lote de canções que procuravam um olhar analítico, distante quanto possível, das realidades retratadas. Invenção, ousadia, sonho e rebeldia, de mãos dadas, em busca de uma brecha num panorama essencialmente feito de marasmo e quase total ausência de apostas.

Curiosamente, apesar de algumas opiniões francamente positivas e de manifestações de entusiasmo junto das camadas musicalmente mais esclarecidas, o disco teve enorme dificuldade em chegar aos ouvidos do grande público. Alguns programas de referência na rádio não o tocaram. E dos mil discos fabricados venderam-se apenas 500 unidades. Hoje é, todavia, peça de colecção disputada nos circuitos do colecionismo. E é sobretudo valiosa a edição que se faça acompanhar pelo single (usado para efeitos promocionais) com os inéditos Festa e Engrenagem (esta uma versão de um tema de José Mário Branco). O grupo dissolveu-se pouco depois. Passo seguinte: os Heróis do Mar.

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