Edgar Raposo

Estudou design e ilustração, trabalhou para algumas publicações, mas a música sempre esteve perto. É editor discográfico, programador, DJ e está ao leme da Goovie Records, uma das melhores lojas de discos do país. Hoje fala-nos da sua coleção.

Qual foi o primeiro disco que compraste. 

O primeiro disco que comprei foi na Festa do Avante, meados dos anos 80, um piratão dos Sex Pistols, “ Never Trust a Hippie”. Ainda o tenho…( e devo ter passado uma certa fome nos outros dias de Avante).

E o mais recente…

Um disco que veio num lote, na realidade uma caixa, da Dolly Parton. Que nunca tinha visto, lançada em Portugal pelas Seleções. Fantástico, com uma fase dela que conhecia pouco, muito soul, estilo Motown e rock’n’roll. Muito bom. Ela era muito versátil e aparentemente muito boa no que fazia. Acabei adquirindo uma compilação da Soul Jazz só de country, mas só mulheres. Onde está a Dolly, mas também a Nancy Sinatra.

O que procuras juntar mais na tua coleção? 

Mais coisas de Neo Garage dos anos 80, que são difíceis de arranjar. Alguns discos originais versão mono, de psych 60’s e rock, etc… E alguns que me faltam do Lee Hazlewood da fase anos 60.

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

A primeira edição do LP dos Velvet Underground em EX estado e com a banana intacta… um dia deste terá de ser.

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste. 

Edição portuguesa do EP dos The Who: My Generation… e o LP original japonês dos Takeshi Terauchi And The Bunnys, de 1966. Mas espero há tanto tempo por dezenas de outros que seria uma listagem longa.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto? 

Já comprei discos caros, mas não cometo loucuras, primeiro porque não me posso dar a esse luxo, depois porque acho loucura o valor dos discos…Mesmo sendo vendedor, tenho noção que alguns discos são vendidos (ou tentam vendê-los) a preços que não fazem nenhum sentido. Mas se há quem os compre…

Lojas de eleição em Portugal…

Continuo cliente da Discoleção… Melhor curadoria de todas. Mas frequento quando posso a maioria das lojas em Lisboa e Porto.

 Feiras de discos. Frequentas? 

Sim, frequento, vou a tudo o que posso… Vou a feiras de discos, umas porque participo como vendedor outras porque vou procurar coisas para mim. Vale sempre a pena, nem que seja pela conversa…

Fazes compras ‘online’? 

Sim, compro online, lojas, feiras, lojas de velharias e em todo o “buraco” onde possa haver discos.

Que formatos tens representados na coleção? 

Maioritariamente vinil, LP e Singles, 10”. Alguns 78 rotações de rock e jazz. Meia dúzia de CD, literalmente.

Os artistas de quem mais discos tens? 

Talvez Kinks, Pretty Things e The Seeds.

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas… 

Já comprei bastante coisa só pela editora, como coisas da EXTRUS, Crypt ou de jazz da Prestige ou Blue Note. Algumas editoras são sinónimo de qualidade. E se errares não será por muito…

Uma capa preferida .

O primeiro LP dos 13th Floor Elevators com certeza uma das melhores, não só pela sua força gráfica. É uma capa que define uma época da música americana e mundial. Um dos ícones do psicadelismo. A sua representação disso mesmo e de todo o universo místico e do oculto fazem dela uma ponte para tudo o que virá depois. E sem dúvida a primeira do Quarteto 1111, que de alguma forma representa algo do género dos 13th Floor Elevators, no universo português.

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro. 

Bom, é difícil, tenho coisas que provavelmente muita gente não gosta, ou não iria gostar. Mas como sou bastante eclético, vou do punk anos 70, garage punk, Soul, psych, electrónica dos 70’s, musica latina, muita coisa do Brasil, africana, indie, etc… Tenho com certeza coisas que muita gente não “papa” nem com açúcar.

Como tens arrumados os discos? 

Na minha ordem desorganizada, alfabética, géneros etc. Normalmente sei onde está tudo, tenho uns largos milhares e mesmo assim na maioria das vezes encontro à primeira, hehehe. Nos singles é mais complicado, escuto bastante e uso bastante nos meus sets de DJ, então por vezes a confusão é muita… Mas até acaba por ser interessante porque fico a fazer digging na minha própria coleção. Por vezes encontro coisas que já nem me lembrava que tinha.

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Um artista propriamente dito não, mas alguns géneros sim, como explorar mais o jazz e a folk. Ou mesmo a música exploratória e experimental ou eletrónica dos 60 e 70, bandas sonoras. 

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos. 

O primeiro LP do Sérgio Sampaio, de 1973, produzido pelo Raul Seixas. Por muitos anos menosprezei-o, hoje escuto muito e acho extraordinário. Um disco fabuloso, cheio de nuances e arranjos. Um disco incrível.

Já compraste discos que, afinal, já tinhas? 

Hummm acho que não, já passei por uma ou outra situação de incerteza. Mas já comprei mesmo sabendo que tenho, pois por vezes são boas oportunidades. 

E o que fazes com os repetidos?

Uso os repetidos para trocas… Ou vendo para comprar outros.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respetiva história? 

Em aproximadamente 20 anos de trabalhar com a compra e venda de discos já aconteceu de tudo. As mais interessantes são as coias que encontramos dentro das capas dos discos. Já encontrei desde pedacinhos de haxixe, notas, e cartas de amor, bicharada variada (morta, claro, e bem prensada). Em certa altura comprei uma coleção que tinha cartas dentro de vários discos, mas eram cartas a uma suposta amante do colecionador. Com coisas bastante comprometedoras. O senhor escondia-as nos discos, pois a esposa em principio, nunca iria olhar dentro das capas dos Pink Floyd ou do Frank Zappa (fica a dica). Boa parte das vezes, quando vendem a coleção, dizem “a minha mulher já não pode ver os discos lá em casa”. Se ela soubesse… Nos que ficam para a minha coleção pessoal raramente tiro esse tipo de coisas dos discos (excepto os bichos mortos) hehehe, nem limpo assinaturas antigas das capas na maior parte das vezes. Deixo até os preços antigos, ou autocolante de antigas lojas onde foram comprados, ficam lá, são lembranças, histórias que fazem parte do próprio objeto. São a alma das coisas.

Um disco menos conhecido que recomendes…

O disco da Joci De Oliveira, Estórias Para Voz, Instrumentos Acústicos e Eletrônicos, 1981. Seria de esperar que recomenda-se algo da Groovie ou mesmo do rock mais garageiro. Mas no entanto este disco, apesar de ser um disco “difícil” é um dos que mais me chamou a atenção nos últimos meses.

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