Viagens pelos 40 anos de discos de Wim Mertens

Com um primeiro álbum lançado em 1980, a obra de Wim Mertens assinala em 2020 os 40 anos de vida. Uma caixa de quatro CD serve de cartão de visita a iniciados e de montra de (boas) memórias a quem ele queira regressar. Texto: Nuno Galopim

Foto: P. Pavan

A história (em disco) começa em 1980. Editado sob o nome Soft Veredict – um coletivo de músicos cuja formação se ia alterando em função da música que tinham para gravar ou apresentar em palco – um disco com música feita “apenas” com som de máquinas de flippers revelava um novo compositor. Nascido na Bélgica em 1953, Wim Mertens tinha estudado ciências políticas ao mesmo tempo que fora desenvolvendo a sua formação na música durante os anos 70. Começara a trabalhar na rádio em 1978 e ajudara a dar forma a concertos de alguns nomes que então desenhavam novas possibilidades para a música. E foi desses confrontos com novas ideias que foi emergindo uma vontade em fazer uma música que não militasse em nenhuma família ou movimento, que fosse expressão do tempo presente (e não nascida de processos de revisitação de formas de outros tempos) e que pudesse falar por si mesma, ou seja, que não implicasse a criação de um discurso intelectual com a necessidade de justificar, localizar ou até mesmo explicar. O processo de busca incluiu ainda uma viagem aos EUA e a escrita de um livro, American Minimal Music, que se tornou numa das primeiras obras de reflexão escrita sobre o minimalismo, abordando-o tanto através de pontos de vista musicológicos como filosóficos. 

Ao álbum de 1980, ao qual chamou For Amusement Only, juntou pouco depois At Home / Not At Home (também de 1980) e Ver-Veranderingen (1981), que expandiram o discurso musical a outro tipo de abordagens e instrumentos. Caberia, contudo, aos seguintes Vergessen (1982) e Struggle For Pleasure (1983) a afirmação já clara de sinais de identidade e a constatação da criação de um público, curiosamente cativando mais atenções junto dos seguidores das músicas “alternativas” do que dos que mais frequentemente escutariam repertório clássico. Peça histórica, o seguinte Maximizing The Audience (1984) assinalou o momento da libertação do nome. Era a última edição lançada como Soft Veredict. Daí em diante tanto as reedições dos primeiros discos como os novos lançamentos passaram a surgir em nome próprio.

Wim Mertens definiu bem clara a identidade da sua música entre uma série de discos que marcaram os anos 80. Entre Instrumental Songs (1985) na verdade um estudo exploratório sobre um único instrumento, o ciclo de canções A Man Of No Fortune and With a Name To Come (1986) e Educes Me (1987), que junta novos passos às demandas lançadas pelos álbuns de 1982 a 84, firma uma linguagem independente que, apesar do interesse em figuras repetitivas, junta elementos de busca de melodias e um certo lirismo. À sua maneira, a sua obra acrescenta à de Michael Nyman e outros (como Peter DeHavilland ou Robert Haigh), peças importantes na construção de novas possibilidades para a música europeia de então. Uma realidade que, uma vez mais, começou por cativar mais atenções entre os públicos das músicas “alternativas” do que em terreno… clássico.

Depois destes discos que lançaram ideias e abriram caminhos, a obra de Wim Mertens caminhou sempre firme na recusa de formas clássicas (nunca o vimos a compor sonatas, concertos ou sinfonias), não deixando por isso de trabalhar um extenso repertório quer instrumental quer vocal, quer para piano quer para formações de câmara (ocasionalmente a grande orquestra), ora fechando ideias na extensão de um disco, ora criando ciclos maiores (como Qua, por exemplo, que envolve 37 CD).

Na hora de assinalar os 40 anos de atividade discográfica, e antecedendo a edição (ainda este ano), do novo álbum The Gaze of The West, no qual toma como ponto de partida um olhar preocupado pela situação política da Europa atual, Wim Mertens apresenta uma caixa de 4 CD na qual propõe uma viagem através dos seus discos, incluindo uma série de gravações inéditas (algumas captadas em atuações ao vivo). Inescapable 1980-2020 arruma as memórias sem se fixar numa narrativa cronológica, temática ou formal. Caminhamos assim entre épocas, entre abordagens a instrumentos diferentes, mas notando sempre como uma “voz” (a criativa, não necessariamente apenas a que canta) que de facto conquistou a construção de uma região demarcada no espaço da música do nosso tempo. Curiosidade interessante para os portugueses – e vale a pena notar que foi em Lisboa que Wim Mertens gravou Epic That Never Was, o seu primeiro disco ao vivo – é o facto de esta caixa guardar vários momentos em que a obra do compositor se cruzou connosco, desde Sovereign Abandon (de When Tool Met Wood, criado para Guimarães 2012) a MP4 (composto para a Expo 98), não esquecendo até a histórica gravação no Teatro S. Luiz a 30 de outubro de 1993, aqui com La Femme de Nulle Part.

O booklet junta uma discografia completa, alguns pequenos textos e notas (uma das páginas recorda a etiqueta Lome Armé que em tempos Wim Mertens coordenou). Mas falta aqui o grande ensaio biográfico ou a entrevista que desse uma ordem à narrativa que os 4 CD da caixa poderiam contar… Mas, e tal como o próprio Wim Mertrens me contou há dias em Lisboa, há um livro a nascer. Feito por um jornalista francês e criado a partir de uma série de entrevistas… Será, assim, um bom complemento a esta história. Para já a caixa trouxe memórias saborosas e revelou alguns momentos que me tinham escapado… E depois dei por mim a ouvir outros discos de Wim Mertens. Ou seja, Inescapable 1980-2020 cumpre as suas principais funções. Conta uma história. Revela surpresas a quem possa não conhecer algumas destas peças… E deixa vontade em ouvir mais.

“Inescapable 1980-2020”, de Wim Mertens, é uma caixa de 4CD lançada pela Usura Music.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.