Novas vidas para a “Missa” de Leonard Bernstein

Estreada em 1971 na inauguração do John F. Kennedy Center For Performing Arts, em Washington DC, a “Missa” de Bernstein continua a conhecer novas gravações e produções. Escutemos dois casos recentes, ambos com o jovem cantor checo Vojtech Dyk como protagonista. Texto: Nuno Galopim

Missa (Mass, no original), de Leonard Bernstein (1918-1990), nasceu de uma proposta lançada para a inauguração do John F. Kennedy Center For Performing Arts em 1971, não sendo então especificando junto do compositor que tipo de peça pretendia. Mais do que apenas uma obra religiosa, é uma obra política, servindo a forma musical (e a sua carga histórica) como catalisador para uma demonstração do poder unificador das artes em volta da memória de uma figura e a crença de uma ideia. Na sua Missa, Bernstein cruza a exploração concreta de questões do foro religioso (que abordara já, tanto na já Sinfonia Nº 3 e nos Chichester Psalms), com uma reflexão sobre as concretas condições sociais da vida do dia-a-dia, questão que por si fora já abordada também na música de West Side Story.

Os dois mundos, não apenas temáticos, mas igualmente musicais (cruzando aqui tradições da música erudita com marcas da cultura popular, nomeadamente a herança do teatro musical), juntam-se numa obra que apela a uma necessidade de espiritualidade. Musical, política e socialmente, a Missa de Bernstein é um retrato do seu tempo. Teatralizada, cruza linguagens, sublinhando também na sua interpretação a noção de diversidade que a própria música em si transporta.

Missa estreou-se na inauguração do Kennedy Center, a 8 de Setembro de 1971, revelando um formato inesperado para quem chegara a pensar, pouco depois da encomenda lançada pela viúva do presidente Kennedy, compor uma missa de requiem. Da pop ao gospel, de linguagens da música contemporânea a janelas abertas ao som característico dos musicais da Broadway, esta é uma das composições mais surpreendentes da obra de Bernstein.

Com uma primeira edição em disco em 1971 sob direção do próprio Bernstein (e é a melhor de todas as gravações disponíveis), a Missa tem surgido em várias produções desde então. Entre nós vimos em 2019 uma interpretação, monumental na dimensão, produzida pela Fundação Gulbenkian juntando amadores e profissionais.

A editora austríaca Capricio acaba de colocar no mercado mais uma gravação da Missa que tem por maestro Dennis Russel Davis (figura que tem acompanhado de perto muitas das estreias das obras de música orquestral de Philip Glass). Dennis Russel Davis, que desde 2017 é o maestro principal da Filarmónica de Brno, conta precisamente com um checo no papel principal. Vojtech Dyk surge aqui em evidência num esforço coletivo que junta os coros da Wiener Singakademie, da Opernschule der Wiener Staatsoper e o Company of Music, assim como a orquestra sinfónica da ORF. Gravação ao vivo no Konzerthaus, em Viena (Áustria), esta Missa está longe de habitar entre a escolha ideal para quem não escutou ainda esta obra de Leonard Bernstein (há um ou outro “prego” que dói). De resto, das várias gravações em disco posteriores à que Bernstein dirigiu em 1971, as mais recomendáveis são as dirigidas por Kent Nagano em 2004 e Marin Alsop (uma clara herdeira de Bernstein) em 2009. Mesmo assim a proposta da Capricio Records junta mais uma abordagem a uma obra que, aos poucos, começa ganha um justificado e sólido lugar entre o “cânone”. É, sem dúvida, uma das grandes obras de música coral do século XX.

Decididamente mais interessante é a abordagem apresentada ao vivo no Foru Karlín (Praga) algum tempo antes, uma vez mais com Vojtech Dyk no papel principal, acompanhado porém por outra orquestra, maestro e coros. Uma versão teatralizada dessa abordagem está disponível no YouTube:

Para os interessados em recuperar a história gravada da Missa de Bernstein, aqui fica a sua discografia completa:

1971. Gravação com o elenco original da estreia no Kennedy Center, com Alan Titus como voz protagonista. Leonard Bernstein dirige um conjunto de músicos expressamente reunidos para a ocasião. Edição em álbum duplo em vinil, mais tarde disponível em CD. Edição CBS Records.

2004. Gravação editada pela Harmonia Mundi, com Kent Nagano frente à Deutsches Symphonie-Orchester, de Berlim. No papel protagonista surge Jerry Hadley. Edição em CD duplo.

2009. Versão recentemente gravada, com Kristjan Järvi a dirigir a Tonsküstler Orchester. A grande diferença face às demais gravações é a opção por levar um barítono (e não um tenor) ao papel protagonista, escolhendo aqui a voz de Randall Scarlata. Edição em CD duplo pela Chandos.

2009. A Naxos apresentou uma gravação dirigida pela maestrina Marin Alsop. Esta Missa conta com a Baltimore Symphony Orchestra e tem Jubilant Sykes como protagonista (o mesmo que recentemente vimos quando a Gulbenkian fez, em 2019, a estreia nacional desta obra no seu Grande Auditório. Edição em CD duplo.

2018. A Deutsche Grammophon apresentou em 2018 uma gravação dirigida por Yannick Nézet-Seguin, que juntava ainda uma marching band, três coros e tinha Kevin Vortman no papel protagonista.

Há uma edição em DVD de uma produção apresentada no Vaticano no Festival di Pascoa do ano 2000. O filme-concerto é apresentado como Mass at The Vatican City, sendo o DVD uma edição da Pan Dream.

Procurando no YouTube encontra-se com facilidade uma gravação de uma interpretação apresentada nos Proms em 2012 (sob direção de Kristjan Järvi), assim como uma outra captada em 1981 no décimo aniversário do John F. Kennedy Center For Performing Arts.

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