Dez discos que definiram o meu gosto – Rui Miguel Abreu

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Rui Miguel Abreu.

Mestre Nuno Galopim desafia e é complicado resistir ao desafio. A verdade é que me custa participar nestas correntes de Facebook, antes de mais nada porque me parecem vulgarizar o que para mim é sempre motivo de extraordinário esforço: falo, pois claro, desta coisa tão importante de pensar sobre a música. De facto, passo a vida a fazer destas listas: de cada vez que escolho discos para figurarem nas colunas habituais do Rimas e Batidas Notas Azuis ou Oficina Radiofónica e de cada vez que assino para a Blitz artigos em que reduzo a algumas dezenas de canções carreiras como a de Tom Waits ou traduzo num limitado número de discos actos de criação em isolamento já estou a criar listas e bem sei o quão difícil é fazer estas escolhas, antes de mais por tudo o que sou obrigado a deixar de fora. Mas ao simples acto de fazer a lista, o Nuno pede que se adicionem algumas considerações e isso ajuda a enquadrar cada uma delas, a justificar porque se elege um disco e não outro qualquer. Portanto, aqui vai: 10 discos que foram importantes para me nortearem nesse insolúvel labirinto a que chamamos música. Todos comprados quando ainda vivia em Coimbra, antes da faculdade e da chegada a Lisboa, em finais de 1987. – Texto: Rui Miguel Abreu

David Bowie “Heroes”

(1977)

Uma das minhas primeiras grandes “pancadas” foi com a discografia anos 70 dos Queen, quando contava 12 ou 13 anos. Não os incluo aqui nesta lista não por causa de algum pudor da minha parte, mas porque, para se sincero, falham na premissa proposta: no meu caso específico não influenciaram coisa nenhuma. Mas uma entrevista em que Freddie Mercury apontava David Bowie como um dos seus heróis levou-me a querer conferir um disco do dito cujo com o título “Heroes”. E pronto, esse sim, escancarou as portas para todo um universo: de Brian Eno ao krautrock.

The Velvet Underground & Nico “The Velvet Underground & Nico

(1967)

“Heroes” fez-me querer conhecer mais Bowie e em Hunky Dory o tema “Andy Warhol” acabou por me guiar até aos Velvet Underground. Isto, claro, muito antes da Internet e da Wikipedia, que tanto jeito teria dado nesse tempo. Pesquisar, com dicionário ao lado, em velhas Rock & Folk pedidas emprestadas a irmãos mais velhos de amigos, sorver cada página dos raros NMEs e Melody Makers que se iam cruzando no meu caminho e, claro, devorar cada milímetro de cada coluna de cada Blitz, semanário que começou a aterrar nas bancas quando eu completei 15 anos, deu para ir, muito lentamente, completando estes puzzles. Cheguei aos Velvets por volta de 1984 ou 85. Quando VU foi editado e António Sérgio me revelou a sua existência não demorei a ir dar ao seu álbum de estreia. Primeiro em cassete gravada em casa de um amigo, mais tarde em vinil (uma edição espanhola, também de 1984, que devo ter adquirido para aí em 1985 ou 1986, na discoteca Big Apple, em Coimbra). E pronto, foi como se se abrisse uma comporta…

Heróis do Mar “Heróis do Mar

(1981)

O primeiro álbum dos Heróis data de 1981 e claro que escutei na rádio os singles que foram na época saindo, mas só por volta de 1984 é que cheguei ao álbum, numa edição “oficial”, ou assim eu julgava, em cassete, comprada numa roulotte, na Figueira da Foz. Este disco influenciou o meu gosto no sentido em que me provou que era possível a música portuguesa ser moderna, arrojada, capaz de olhar em frente e expressar na minha língua as mesmas coisas que gente tão interessante andava a dizer em Nova Iorque ou Londres.

John Lee Hooker “Original Folk Flues

(1967)

Por volta de 1985, de férias na Figueira da Foz, depois do habitual passeio nocturno com os meus pais que invariavelmente começava na Imanha para comer um gelado, deparei-me com uma loja de discos nas imediações do Casino. Com os 200 escudos que tinha andado a poupar durante as férias (e olhando para mim na época ninguém diria que eu era capaz de prescindir do dinheiro do gelado para juntar para comprar discos…), entrei na loja apenas para descobrir que quase tudo o que me chamava a atenção se encontrava então fora do meu orçamento (os álbuns custavam entre 350 e 400 escudos, se a memória não me falha…). Mas, numa edição “budget” da Joker, que, se não me engano, era por cá distribuída pela Dargil, lá estava este Original Folk Blues, a custar exactamente o que eu era capaz de pagar nesse dia. Passei o resto das férias a imaginar a que soaria a música daquele senhor de olhos cerrados na capa, fascinado pela guitarra eléctrica e pelo microfone. Quando finalmente o pousei no prato em casa, um novo mundo escancarou-se diante dos meus ouvidos.

Talking Heads “Little Creatures”

(1985)

Uma vez mais, 1985! E um disco que tanto escutava no Som da Frente como, durante as tardes da Comercial, nos programas Discoteca do Adelino Gonçalves e num outro titulado, se a memória, uma vez mais, não me atraiçoa, A Cor do Som. Esse programa tinha um acordo com as Lojas Valentim de Carvalho e divulgava novidades disponíveis nessa cadeia. Havia uma loja Valentim na Rua Ferreira Borges, em Coimbra, e foi por lá que passei semanas a admirar a capa deste álbum antes de finalmente reunir o dinheiro suficiente para o comprar. E pronto, mais outra imparável cascata de sons e referências se abriu. A primeira coisa que fiz foi tentar comprar, com uma lentidão exasperante que implicou alguns anos de infinita paciência, os álbuns anteriores do grupo. Valiam, claro, as compras coordenadas com amigos que permitiam ir duplicando em cassete os álbuns desejados a um ritmo bem mais condizente com a “sede”.

Laurie Anderson “Big Science”

(1982)

Passei o verão de 1986 a trabalhar no escritório da empresa metalúrgica do meu pai. Fazia todos os dias uns quantos quilómetros de bicicleta para passar as horas de expediente à espera que o telefone tocasse no pequeno escritório montado no canto de um armazém repleto de ferramentas e tubos e ferros e material diverso. Ouvia rádio e esperava a hora de saída. No percurso de volta costumava parar em casa de um amigo que tinha um irmão mais velho. Um dia que o irmão não se encontrava – tinha ido acampar durante o Verão – pudemos ir ao seu quarto espreitar os discos, coisa interdita sempre que ele se encontrava presente. Consegui então convencer o meu amigo a emprestar-me um disco com uma capa intrigante. Tinha por título Big Science e eu escolhi esse de entre todos os discos disponíveis naquela pequena colecção apenas porque conhecia outro artista com o mesmo apelido Anderson – um senhor chamado Ian, líder de uma banda britânica, os Jethro Tull. Achei que deviam ser familiares porque o senhor Anderson que eu conhecia além de cantar tocava flauta e esta intrigante senhora Anderson além de cantar tocava, de acordo com a ficha técnica, violino. Na minha cabeça surgiu imediatamente a imagem de uma família que pudesse ter educado os seus rebentos em instrumentos clássicos, nunca imaginando que Ian Anderson e Laurie Anderson estavam na verdade separados por um oceano e por ideias musicais radicalmente distintas. Dizer que me deparei com uma revelação quando a agulha pousou no vinil e as primeiras notas de “From The Air” se soltaram das colunas é dizer, na verdade, muito pouco…

Suicide “Suicide”

(1977)

Lembro-me bem de comprar tintas na drogaria Toríbio de Matos, na Praça Velha, em Coimbra. Vermelho e negro. O meu irmão, que tinha algum jeito para o desenho, decalcou as letras e os pingos “pollockianos” de tinta da capa do primeiro álbum dos Suicide e criou-me a minha primeira T-shirt de bandas, preciosa ferramenta de integração no então complexo ecossistema social que se desenvolvia em torno da esplanada do café Santa Cruz, na baixa coimbrã. Devia ser 1986, porque ainda não tinha deixado Coimbra. Um par de anos depois, eu, o meu irmão e vários dos amigos que conquistei também graças aquela T-shirt vimos Alan Vega, Martin Rev e os Telectu nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, corria o ano de 1988. Outra revelação gigante. Ao disco tinha chegado quando comecei a desbravar a selva de referências punk com que me fui cruzando, ajudado, quase de certeza, por António Sérgio, por um lado, e pelos escritos do Blitz, por outro. E pela bem mais ampla colecção de discos do Carlos Dias.

Kraftwerk “The Man Machine”

(1978)

O facto de ter, em 1978, merecido edição portuguesa, na Valentim de Carvalho, fazia deste disco uma presença algo vulgar nas colecções dos meus amigos em meados dos anos 80. Como tantas outras vezes aconteceu, acabei por ceder ao disco por causa da capa, que me parecia estranha e exótica. Sei que quando o ouvi a primeira vez, quase de certeza em casa do meu já referido amigo Carlos, pensei tratar-se de um álbum de punk rock. O que ali encontrei, no entanto, fez-me mergulhar num novo e fascinante universo que não me cansei de tentar mapear até aos dias de hoje.

Brian Eno & David Byrne “My Life in The Bush of Ghosts”

(1981)

Em Coimbra, como já referi, havia um ecossistema muito particular em meados dos anos 80, com uma espécie de hierarquia em que cada uma das pessoas que eu conhecia era posicionada de acordo com o fôlego da sua colecção de discos. Uma intrigante figura de topo desse ecossistema respondia ao nome “Paulo Eno”. O meu amigo e vizinho Carlos Dias estava com ele envolvido nalguns projectos musicais e eu, mais novo um par de anos, costumava segui-lo para todo o lado. Lembro-me de uma noite, na Praça da República, depois de regressarmos da Alliance Française onde, a bem de uma credibilidade indie qualquer, tive que suportar duas horas de Eric Rohmer sem legendas (tive que rever Ma Nuit Chez Maud anos depois para perceber do que se tratava…), me ter sido dado a “honra” de segurar num molho de discos que o Paulo Eno parecia carregar para todo o lado. Como não me foi dada autorização para mexer nos discos, apenas para os segurar, só me lembro do primeiro, My Life in The Bush of Ghosts. Foi por aí que quis começar a desbravar a obra de Brian Eno, sabendo já que ao seu lado nesse álbum estava o mesmo David Byrne que já conhecia dos Talking Heads. E sei que o comecei por ouvir numa cassete copiada de outra cassete. Só depois de chegar a Lisboa é que comprei finalmente o meu exemplar em vinil.

Tom Waits “Rain Dogs”

(1985)

Recordo-me de me deter longamente na montra da Valentim de Carvalho, sempre que regressava das aulas no Liceu D. Duarte, e de admirar fascinado a capa de Swordfishtrombones, de Tom Waits. Mas quando finalmente arranjei dinheiro suficiente para investir no meu primeiro Waits, algures no final de 1985, foi a edição portuguesa da Dacapo para Rain Dogs que eu adquiri, numa loja da Rua da Sofia que me lembro de ter uma ligação qualquer ao Partido Comunista. Nasceu aí uma longa relação musical que dura até aos dias de hoje. E Rain Dogs permanece um dos meus discos favoritos de Tom Waits e um portal para tanta outra coisa que me atrevi a ouvir porque impulsionado pelo que fui lendo na ficha técnica e pelos sons que se soltavam de cada uma daquelas extraordinárias canções.

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