O magnífico “The Good Son” de Nick Cave faz hoje 30 anos

Foi na altura encarado com ceticismo por alguns, mas abriu espaços novos na música de Nick Cave. O disco que dividiu opiniões revelava outras fontes de inspiração, um outro sentido de elegância (e classicismo) e a ousadia acabou por definir um importante momento de descoberta para o músico e os seus admiradores. Texto: Nuno Galopim

Em tempo de pandemia, a música pode abrir janelas para que nos possamos manter ligados. E por isso o GiRA DiSCOS está, a cada dia, propor uma canção para uns minutos de (boa) audição. Hoje ficamos com uma canção do álbum The Good Son, de Nick Cave, que foi editado faz hoje precisamente 30 anos.

Depois de Tender Prey (1988) a vida de Nick Cave passou por episódios de alguma convulsão. Por um lado há que assinalar a publicação, em 1989, de And The Ass Saw The Angel, o seu primeiro livro. Por outro, no plano pessoal, houve uma temporada passada num programa de reabilitação, findo o qual uma mudança de residência para São Paulo (no Brasil) acabaria por acentuar as mutações em curso que acabariam por ganhar forma no alinhamento do álbum que chegaria às lojas de discos a 17 de abril de 1990.

Chamava-se The Good Son e dele o mundo tinha já escutado (como single de antecipação) a balada The Ship Song, que revelava caminhos distintos dos que a música de Nick Cave até ali seguira tanto nos dias dos Birthday Party como com os Bad Seeds. Era uma balada, firme e algo clássica na forma e elegante nos arranjos, destacando um registo vocal que, com o tempo, ganharia um espaço de grande protagonismo na obra de Nick Cave. Mas se o single tinha dividido opiniões, o álbum ainda acentuou mais o desconforto junto de alguns que seguiam mais de perto a obra do músico.

Quando compunha as canções de The Good Son Nick Cave sentia, curiosamente, que estava a ser radical na nova abordagem às temáticas e à própria música. Ia por caminhos distintos e desafiantes quer face ao seu passado quer face aos trilhos que as músicas de maior visibilidade então iam definindo nas linhas da frente do que era mediatizado. Nick Cave optava por revelar fragilidades e frestas sobre regiões emocionais mais íntimas. Era um desafio aquilo que propunha. Para si e para os que o acompanhavam. Trinta anos depois, e tendo em conta o caminho que a sua obra foi definindo, convenhamos que a audácia valeu-lhe a criação de um clássico.

Houve novos métodos de trabalho em estúdio. Novos sons em jogo (como por exemplo os que chegaram com elementos da secção de cordas de uma orquestra de São Paulo). Mas talvez mais significativos foram os estímulos que se transformaram em canções. Como um hino religioso que ouviu cantado pela sua companheira de então, Viviane Carneiro, e ganhou forma em Foi Na Cruz ou no modo como um encontro causal com uma velha memória de Johnny Cash desencadeou o tema-título do álbum. The Weeping Song (uma das melhores faixas do álbum, escolhida depois como segundo single) nasceu durante uma ida à rua para ir comprar cigarros e logo depois virar a esquina e regressar a casa. Lament traduz um olhar pessoal sobre a sua companheira de então… Tal como Lucy, que encerra o alinhamento, é uma reflexão que vinca o modo de encaminhar a escrita para outras formas de procurar inspiração em si mesmo e nas suas experiências.

O tempo tratou de sarar e resolver o choque que o disco causou em alguns dos seus admiradores… Mas na altura o próprio Nick Cave sentiu o embate das reações. Ele próprio estava ciente de que as reações ao disco poderiam traduzir estranheza. Achar até que a sua música tinha ficado… suave. Mas na verdade aquela era outra das faces do mesmo rosto. Ali brotava um Nick Cave que encontrava outras formas de se expressar e, sobretudo, sobre refletir sobre si e o seu mundo. The Good Son era um disco pessoal. Muito pessoal. Mas uma inteligente condução dos caminhos daí em diante acabou por mostrar como aquela era afinal uma mesma voz, parte de um corpo maior. E que nos podia falar também de várias maneiras (curiosamente notou-se menos estranheza perante a inflexão para uma música ainda menos rígida nas formas assumida nos dois mais recentes álbuns).

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