Quando François Ozon reuniu um elenco de luxo em volta de uma comédia musical

Estreado em 2020 o filme “8 Mulheres” assinalou por um lado uma admiração de Ozon pelo cinema de Douglas Sirk e Alfred Hitchcock e, por outro, levou ainda mais longe um interesse seu em explorar a presença da música nos seus filmes. Texto: Nuno Galopim

Há oito canções entregues a cada uma das oito atrizes que vemos em 8 Mulheres, filme de 2002 do realizador francês François Ozon. Cada uma das canções ajuda a explicar as personagens ou corresponde a uma peça na narrativa, embora nenhuma delas tenha sido criada para o filme. Na verdade, o que aqui encontramos são versões de clássicos da canção francesa que, assim, ajudam a baralhar a caracterização formal de 8 Femmes. Afinal é ou não um musical? No mais clássico sentido da ideia, as canções habitam de facto o filme como o fazem os grandes musicais clássicos. A dada altura, cada uma das atrizes deixa de falar e canta no quadro da cena em curso, ocasionalmente (como no caso de A Qui Sert de Vivre Libre, na voz de Fanny Ardant) com mudanças na luz durante esse momento, mas sem nunca deixar o cenário nem mesmo implicar a saída das demais figuras em cena. Muitas vezes as canções são acompanhadas por uma coreografia. As canções são, como o próprio Ozon explicou, pequenos monólogos entregues a cada uma das personagens. Por tudo isto, sim, entendamos 8 Femmes como uma comédia musical.

As mais evidentes referências que o realizador chamou a este projeto estão, contudo, no contudo, no cinema de Alfred Hitchcock (no arrumar da trama) e Douglas Sirk (na cor, na cenografia, no guarda roupa, no próprio sentido classicista de glamour). O filme nasce de uma adaptação de uma peça de teatro de Robert Thomas. Era a segunda vez que Ozon o fazia, pouco depois de Gouttes d’Eau Sous Pierres Brûlantes (aí com texto de Fassbinder), filme onde usava já a música de forma deliciosamente desconcertante, embora apenas numa cena coreografada ao som de Träume, na voz de Françoise Hardy).

A ideia de recorrer a clássicos de vozes da canção francesa não era aí, também, novidade no seu percurso. Em 1996 ouvimos Bang Bang, o hino melancólico yé yé na voz de Sheila, numa sequência central da curta-metragem Une Robe d’Eté. Mas para 8 Femmes Ozon decidiu levar a presença da música a um patamar ainda mais central no corpo do filme. E convenhamos que não só conseguiu o feito de juntar um elenco galáctico de grades atrizes do cinema francês (entre as quais Catherine Deneuve, Fanny Ardand, Isabelle Huppert, Emmanuel Béart, a veterana Danielle Darrieux ou a jovem esperança Ludivine Sagnier), como conseguiu que cada uma delas cantasse uma das oito canções que escutamos ao longo do filme. E de que canções falamos? De temas que vão da leveza yé yé de Papa t’es Plus Dans l’Coup (uma vez mais de Sheila), Message Personel de Françoise Hardy, Pour Ne Pas Vivre Seul de Dalida, A quoi sert de vivre libre, de Nicoletta, Mon Amor Mon Ami de Marie Lafôret, Toi Jamais de Sylvie Vartan, Pile ou Face de Corinne Charby ou Il n’y a pas d’amour heureux de Georges Brassens (que Françoise Hardy também cantou).

A ação decorre num casarão aristocrata nos finais dos anos 50 (a peça de teatro é de 1958) e apresenta-nos perante uma situação inesperada: um homem aparece morto. Quem o matou? A mulher tinha acabado de ir buscar a filha mais velha, que regressava a casa. A mais nova ainda lá vive, juntamente com uma tia, uma avó, uma cozinheira e uma empregada de quarto. A oitava mulher (a que o título refere) é a irmã do morto… Como numa trama policial clássica somos apresentados às personagens, e cada uma desvenda argumentos e alibis que, aos poucos, notamos que estão, todos eles, cravados de mentiras… O telefone está cortado. O carro não pega. Um nevão impede que o portão abra… Estão isoladas e, entre elas, estará o assassino, concluem… Quem será?

         Ozon tira partido do elenco que conseguiu reunir e alimenta as personagens com a força de cada uma das oito atrizes. As canções interrompem os diálogos, mas não são necessariamente exercícios de quebra-gelo. O tom narrativo é de comédia. O tom visual é de evidente fantasia hollywoodesca. Há um clima camp a pariar sobre toda a construção estética (visual e musical). E no fim a coisa dividiu opiniões. Por um lado valeu a François Ozon o seu primeiro grande sucesso de bilheteira. Tal como Gouttes d’Eau Sous Pierres Brûlantes (que ganhou o Urso de Ouro) teve prémios em Berlim, nomeadamente uma distinção para o elenco. Mas na gala dos Césares desse ano colheu 11 nomeações, das quais o saldo acabou em zero prémios.

A banda sonora do filme foi editada em disco pela Fidelité Productions / Wea Music France por ocasião da estreia juntando, além das oito canções, nas vozes das oito atrizes, uma série de faixas orquestrais compostas por Krishna Levy, acentuando aqui sinais de afinidade com a memória do cinema de Douglas Sirk.

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