Dez discos que definiram o meu gosto – Sofia Vieira Lopes

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é a Sofia Vieira Lopes.

O desafio proposto pelo Nuno Galopim não seria um verdadeiro desafio se não fosse efectivamente difícil. Tendo em conta que a minha vida é, hoje, literalmente passada a ouvir música e a escrever, o repto da escolha dos dez discos que marcaram o meu gosto musical é ainda maior.

Estas memórias, ou o meu gosto musical, não passam apenas pelos discos enquanto objectos, mas por muitas canções isoladas e por obras de vários compositores que só muito recentemente transitaram da partitura para a vida das gravações. As minhas memórias musicais estão também irremediavelmente ligadas aos “instrumentos” através dos quais me chegaram ao ouvido. Primeiro, o rádio a pilhas, companheiro inseparável pelas divisões da casa, e os serões em que a minha mãe tocava órgão e eu, antes de aprender a tocar, cantava com ela. Depois, o gira-discos que habitava na “sala grande” – aquela que só usávamos em dias especiais – e que era só meu na maior parte do tempo. Há ainda o rádio do carro e os cânticos em coro, ou walkman vermelho e amarelo que “roubara” ao meu pai para poder ouvir – sem ser ouvida – as cassetes gravadas pelas minhas irmãs.

Como todas as selecções, esta é imperfeita, incompleta e irracional – se racional for o oposto a emocional. Claro que este exercício de auto-representação está revestido de preocupações com as escolhas e o quão reveladoras poderão ser, mas está igualmente repleto de “obrigada Nuno!” por este de resgate de memórias.

“L’amour est Bleu” (int. Vicky Leandros) – Versão de Paul Mauriat (1967)

Let. Pierre Cour; Mús. André Popp; Orq. Claude Denjean

Este é o caso de uma “presença musical” que não consigo localizar no tempo. É uma das primeiras canções que povoam a minha infância. Por isso, a memória de L’amour est bleu está invariavelmente relacionada com a casa onde cresci, com o gira-discos ligado nas manhãs de fim-de-semana, com a minha mãe a cantar, com os dias de Primavera de janelas escancaradas e com uma alegria inocente de criança. Lembro-me de ouvir a canção em duas versões: cantada em francês e instrumental. Eu preferia a instrumental. Permitia-me cantar numa língua inventada, acompanhada pela orquestra, enquanto dava um grande show para o público imaginário. Com três ou quatro anos, desconhecia a proveniência desta canção e estava muito longe de imaginar que, trinta anos mais tarde, estaria a dedicar o meu tempo à Eurovisão…

“La Mer”, três esboços sinfónicos – Debussy

(Composição: 1905; Gravação: 1949)

Não me lembro como é que o Debussy “entrou lá em casa”. Lembro-me que o CD esteve quase perdido na estante até o ter “resgatado” quando tinha dez ou onze anos. O CD tinha outra obra do compositor e outras três de Maurice Ravel. Porém, de todas, a que despertou verdadeiramente o meu interesse foi o La mer, de Claude Debussy. Passei horas deitada no tapete da sala a ouvir as impressões da água traduzidas em música, simulando boiar, durante horas, nesse mar impressionista. Na altura, nada sabia sobre quem era aquele que tão bem tinha transformado o líquido em som, mas foi a partir de La Mer que procurei outras obras e que Debussy se tornou num dos meus compositores de eleição.

“Unplugged” – Alanis Morissette

(1999)

As cassetes já estavam completamente fora de moda e, depois de passar muito tempo a mendigar um Discman, o Natal de 1998 trouxe finalmente o tão desejado objecto. Este Unplugged é o primeiro CD que comprei com o dinheiro que havia passado meses a juntar. Comprei-o numa loja de discos que existia num centro comercial no Entroncamento – destino de peregrinações obrigatórias que precediam as visitas à minha avó. Mas Alanis Morissette já fazia parte de uma banda sonora diária, desde que passara a frequentar diariamente a casa da minha melhor amiga. Na altura, instaura-se uma espécie de ritual: a minha chegada significava horas com a música “aos berros”. A Tânia tem uma irmã mais velha e nós, com dez anos, apoderámo-nos da aparelhagem e dos CDs dela. Ali, na Rua Carvalho Araújo, as tardes eram passadas em coreografias, imitações de videoclips e com a sensação que já eramos crescidas. Alanis Morissette traz ainda a memória de um trabalho de grupo feito à pressa, copiado directamente do booklet do CD. Muito satisfeitas com a façanha, fomos surpreendidas com a recusa da professora que achou que os poemas não eram “próprios” para a nossa idade, ainda menos para um trabalho de escola… Alanis habita a minha adolescência, mas é curioso que, até escrever este texto, a sua presença estava há mais de quinze anos literalmente esquecida numa caixa.

Sinfonia dos Salmos” – Igor Stravinsky

(Composição: 1930; CD: 1991)

A Sinfonia dos Salmos e muitas outras obras que residem na minha memória coincidem aquele que, ainda hoje, considero ter sido um dos melhores presentes de sempre: uma aparelhagem para o meu quarto. Veio acompanhada de uma enorme colecção de CDs de “música clássica”, que cobria várias épocas desde a Idade Média à contemporaneidade. Nesta altura eu já estudava no Conservatório e aquele presente foi recebido com a maior euforia. Deitava-me na cama, no escuro, com o som no máximo (as vantagens de se viver numa quinta) e “curtia” literalmente o jogo de dissonâncias e consonâncias que Stravinsky tinha materializado nesta obra. Uma passagem do coro – um Aleluia quase no final do último andamento – agradava-me especialmente. As tensões e relaxamentos consecutivos provocavam reações físicas e ainda hoje fico absolutamente frustrada quando escuto alguma interpretação que não consiga criar a mesma sensação. Foi esta Sinfonia dos Salmos que me trouxe uma admiração pela obra de Stravinsky e, depois deste, seguiram-se outros vícios em forma de música: a Sagração da Primavera e a História do Soldado

Klezmer Madness! – David Krakauer

(1995)

David Krakauer aparece enquanto estudava clarinete no Conservatório. Os dias de Sábado eram, ao longo de toda a semana, ansiosamente esperados. Porque queria muito estar na aula de Formação Musical?! Obviamente que não!!! Eram desejados (também) pelas tardes de conversa no átrio, pelos passeios pela cidade com os colegas ou pelos almoços onde podíamos comer tudo sem censuras. Enfim, uma sensação de libertdade! Eram desejados (também) pelas novidades trazidas pelos colegas mais velhos – ou mais “avançados”, como dizíamos – alguns já a estudar no ensino superior em Lisboa. Traziam-nos notícias de concertos, da música que por cá tocavam e dos discos que compravam. Foi assim que me chegou a música de David Krakauer e o seu Klezmer Madness. Foi com ele que percebi que o clarinete pode ser mais do que um Concerto de Mozart (sem desprimor algum… que eu A-D-O-R-O Mozart) e que, afinal, o som roufenho não implica correcção imediata, que os guinchos outrora reprimidos também podem fazer parte da música e que nem sempre temos de seguir o que está escrito na partitura… Indirectamente, foi a sua forma de tocar que me fez questionar aquilo que aprendia: uma aparente perfeição, uma sobrevalorização da música erudita ocidental, um academismo irrefutável… Foi também “com ele” que quis saber mais sobre “outras músicas” e outros lugares…

“O Irmão do meio” – Sérgio Godinho

(2003)

Sabia que o disco iria sair em breve e já o tinha colocado na lista, mas todas as lojas de discos da minha zona já tinham fechado. Os passeios a casa da avó já não eram precedidos das deambulações pela loja onde gastara grande parte das minhas mesadas. Estas lojas eram agora mais ou menos substituídas (se é que se pode chamar substituição) pelas “Wortens” e outras grandes “lojas de tudo e de nada”. Teria de esperar por uma ida a Lisboa para o comprar… Inesperadamente, no início do Verão, encontrei o disco numa pequena livraria e tive de pedir dinheiro emprestado para o trazer comigo de imediato. O Irmão do meio faz parte da banda sonora daquele Verão. Parecia que o Sérgio Godinho tinha adivinhado as minhas minhas inquietações – porque com 16 anos tem-se muitas inquietações – e que dizia exactamente o que eu queria dizer, mas não sabia como. Além disso, algumas das canções que mais gostava apareciam aqui com arranjos fantásticos e contavam com a colaboração de outros músicos que também admirava – e admiro… alguns daqueles que tive de deixar fora desta selecção: o José Mário Branco, o Jorge Palma ou os Clã. O disco mostrou-me o poder das canções intemporais, que se reinventam e ganham novas vidas, que nunca se esgotam num sucesso instantâneo. Este disco tem-me acompanhado desde então, como um companheiro de viagem pertinaz. Com O Irmão do meio, podiam vir todos os outros, mas não tenho espaço para os mais de trinta discos e concertos do Sérgio que marcaram a minha vida…

Clarinet Concerto – Aaron Copland

(Composição 1947-48; Gravação: 1989; CD: 1991)

A minha fascinação pelo concerto para clarinete de Aaron Copland é mais ou menos da mesma época. Ouvi-o pela primeira vez num disco que compilava as gravações dos premiados do Prémio Jovens Músicos (da Antena 2/RDP), tocado por um dos meus professores. Desde então, esta obra, composta originalmente para o clarinetista Benny Goodman, é uma das minhas obras favoritas. Tentei tocá-lo, mas fiquei sempre terrivelmente insatisfeita com o resultado. Por isso, qualquer tentativa de escrever sobre o Concerto ficará tão aquém da sua beleza e da minha relação emocional com esta obra quanto as minhas tentativas goradas de o interpretar. O primeiro andamento é… comoventemente brutal e arrebatador…  e o segundo, uma surpresa quase desconcertante. Esta obra marca também uma viragem na minha vida. Depois de querer muito ser clarinetista, o embate com a realidade mostrou-me que só munida de muita perseverança, paciência e uma boa dose de solidão conseguiria chegar – eventualmente – àquilo que ouvia no disco. Mas se o choque com a realidade poderia ser mau, o resultado não o foi. Fez-me olhar e entender a minha inquietação constante, alguma dispersão e um certo desprezo pelo isolamento como uma oportunidade de desviar da rota. O desvio não foi drástico e acabei por encontrar prazer na procura constante dos “porquês” na música que outros tocam.

“Medúlla” – Björk

(2004)

A minha primeira memória da Björk não está propriamente relacionada com a sua música, mas com um poster que me chegou na compra de uma revista… Lembro-me de ficar fascinada com a imagem e acabei por colá-lo na parede mesmo sem saber de quem se tratava. Nas poucas oportunidades que tive de utilizar a internet (sim, porque onde morava, a internet foi durante muitos e muitos anos uma miragem), descobri o nome Björk e até consegui até “sacar” uma faixa de um álbum… Anos mais tarde, nas minhas visitas de Sábado à Biblioteca de Tomar, mesmo ao lado do Conservatório, encontrei todos os discos de Björk editados até então (devo aqui uma ressalva à Biblioteca de Tomar que tinha uma notável colecção de discos que também influenciaram o meu gosto). Ouvi-os militantemente e, por essa razão, escolher um único disco da Björk é tarefa hercúlea. O trabalho cuidado na utilização da electrónica, que até então eu considerava “menor”, deixou-me desde logo fascinada. Para estas memórias, decidi escolher o Medúlla que, desde 2004, passou a fazer parte da minha playlist. O trabalho de composição realizado quase exclusivamente com o recurso à voz é maravilhoso e revela uma minúcia e bom gosto próprios da compositora.

“Sea Of Reeds” – Accordion Tribe

(2002)

O álbum desde grupo de acordeonistas provenientes da Eslovénia, Suécia, Finlândia, Estados Unidos e Áustria mostrou-me que, afinal, o acordeão não tem de estar sempre associado ao Vira do Minho ou a um qualquer “bailarico” numa festa de Verão… Sea Of Reeds é daquelas coisas “chegadas de Lisboa”. Primeiro, ouvidas no carro durante os tão desejados fins-de-semana na Barragem de Castelo de Bode; depois, nos dias longos já na Graça, em Lisboa. Sea Of Reeds é a banda-sonora de novas geografias, novas rotinas, do autocarro 16 até à Avenida de Berna, de muita errância sozinha pelas ruas de Lisboa, das viagens intermináveis de comboio de volta a casa dos pais… Este disco tem a proeza de me transportar numa cápsula do tempo, sem paragens em estações ou apeadeiros, até ao ano de 2005. O ano das grandes mudanças… que começaram numa louca festa de aniversário e culminaram na tão aguardada mudança para a capital.

“Construção” – Chico Buarque

(1971)

O Chico chegou mais recentemente… chegou numa altura em que fui duramente confrontada com os desígnios da vida adulta. Os “safanões de realidade” estão eximiamente desenhados nas dez canções deste álbum – dez pequenos-grandes murros no estômago compostos por Chico Buarque. A lucidez é aguçada e assombrosa, o labor na composição e no texto são entorpecedores de tão realisticamente perfeitos. Estas canções vêm revelar sem pudor aquilo que, por falta de mestria ou vergonha, não ousamos dizer. São canções que falam de muitas vidas, das inquietações que são de tantos, num exercício de introspecção expressionista. A capacidade de multivivência desta Construção só demonstra a excelência da sua composição. Depois delas, e de ser confrontada com a forma cuidada com que mensagem, lirismo, composição e interpretação são simbioticamente tratadas – como também o são nas canções do Zeca Afonso ou do José Mário Branco –, criei uma espécie de intolerância crónica ao desmazelo e à negligência de outras…

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