José Afonso “Baladas e Canções” (1964)

Editado em 1964 o álbum de estreia de José Afonso (que ainda assinava com o respetivo título académico de Dr.) traduz sinais de transformação na sua música que olhava já para além das formas e dos temas da canção de Coimbra. Texto: Nuno Galopim

Iniciamos hoje uma série de pequenos textos sobre álbuns da música portuguesa que não costumam ser apontados como os títulos de referência dos respetivos autores ou até são por vezes ignorados em listagens dos mais representativos do seu tempo. Todos eles, contudo, são discos a ter em conta para contar as histórias de quem os fez e do período em que foram gravados e editados. E começamos com o LP de estreia de José Afonso. Não tem o estatuto “histórico” do mítico Cantigas do Maio (1971) nem de outros discos seus que marcaram o tempo sobretudo entre finais dos anos 60 e a década de 70… Mas Baladas e Canções é, mesmo assim, um LP com um peso maior na definição de caminhos de modernidade na história da música popular portuguesa.

Onze anos separam as primeiras gravações de José Afonso (editadas em discos de 78 rotações lançados em 1953 pela Melodia) do momento em que finalmente gravou um primeiro álbum. Mas muito tinha acontecido na sua vida pessoal (marcando o seu modo de pensar) e na sua relação com a música desde então. Longe iam então os primeiros EP que destacavam na capa a presença de “fados de Coimbra”, em vários momentos partilhando os alinhamentos com outras vozes, nomeadamente a de Luis Goes. De uma tomada de consciência política e social e de um olhar crítico sobre as temáticas mais habituais na canção coimbrã, José Afonso começa a operar uma série de transformações que passam pela troca da guitarra pela viola e depois por uma escrita que olhava de frente ecos do Portugal de então. Foi António Menano, referência maior da canção coimbrã, quem a estas canções chamou “baladas” para as diferenciar do “fado”. E José Afonso adotou a ideia. E deixou que a transformação “cultural e vivencial” (palavras suas) em curso ganhasse expressão.

Se o EP Balada do Outono (1960) tinha já destapado sinais dessas transformações um outro, editado em 1963, que incluía os Vampiros e Menino do Bairro Negro, tornava evidente que outra voz ganhara fôlego e podia agora incomodar não apenas aqueles que tinham já reagido aos desafios formais, mas também os que zelavam pelo poder no Portugal de então. E é nesse clima de ousadias assimiladas que José Afonso grava um primeiro LP. Ao invés de gravações anteriores (algumas delas nos espaços de um convento em Coimbra, cuja passagem dos carros na estrada ali perto obrigava à interrupção das sessões), o álbum ganhou forma nos estúdios da RTP no Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia. As canções estavam pensadas para (apenas) voz e acompanhamento à guitarra, devendo aí Rui Pato (que o continuaria a acompanhar ainda por alguns anos) definir uma relação não intrusiva do dedilhar das cordas com a voz.

A seu tempo chegariam outros patamares de complexidade, não só na dimensão subjetiva das palavras mas também nas visões projetadas nos arranjos. Mas entre o alinhamento do álbum ao qual chamou Baladas e Canções, e que assinou (como nos EPs lançados até então) como Dr. José Afonso, fica clara uma das primeiras expressões determinantes de modernidade na canção portuguesa. Ou seja, se no fado (de Lisboa) o Busto de Amália revelara sinais de mudança, José Afonso assinalava, com o seu primeiro LP, outro episódio com fulgor de visão e sede de transformar. Talhados pelas personalidades fortes de ambos, são discos determinantes na abertura da música portuguesa a desafios que dali em diante alargariam horizontes de possibilidades não apenas a ambos mas também aos que nesses discos encontram importantes estímulos e referências.

Pelas Baladas e Canções passam ainda ressonâncias da canção de Coimbra, embora os sinais de transformação e mais demarcada personalidade lançados pelos EPs dos anos anteriores sejam igualmente evidentes. Há um enorme cuidado lírico numa escrita que brotava de alguém com uma relação já profunda com as ideias e as palavras. Mas não deixa de haver igualmente espaço para a afirmação de uma identificação com a cultura popular, que se nota quer no tradicional açoriano Os Bravos como na inclusão de versos de António Aleixo na Balada Aleixo. O disco inclui ainda canções como Altos Castelos, Canção Longe, Minha Mãe ou Na Fonte Está Lianor. Coro dos Caídos chegou a ser descrito pelo próprio como representando uma continuação temática da ideia levantada nos Vampiros do ano anterior. A Ronda dos Paisanos, que parece respirar heranças de tradições trovadorescas, também incomodou pelo modo como retratava o poder fardado. O disco retomava, em versão instrumental, a Balada de Outono. E lançava o instrumental do Coro da Primavera que depois seria retomado mais tarde.

Gravado e lançado imediatamente antes da partida de José Afonso para Moçambique, Baladas e Canções encerra um ciclo de visões que caracteriza a sua obra entre 1960 e 1964. O regresso aos discos, em 1968, revelaria já sinais das experiências que o tempo, entretanto, acrescentara.

“Baladas e Canções” teve edição original no formato de LP pela Ofir, uma pequena editora do Porto. O disco, com o mesmo título, mas já assinado apenas como José Afonso (sem o título académico, portanto) e com uma nova capa, tem uma segunda edição em 1967, em LP, ainda pela Ofir. Uma terceira edição, já no suporte de CD, e novamente com uma capa diferente (usando uma foto da contracapa da edição de 1964) chegaria em 1996 pela EMI.

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