Uma edição especial para celebrar os 50 anos de um álbum que levou os Doors a reencontrar o seu caminho

Originalmente editado em 1970, o clássico “Morrison Hotel” regressa numa edição especial que inclui o disco em vinil e CD e acrescenta vários ‘takes’ de sessões que mostram como as canções evoluíram até chegar às formas que o disco depois fixou. Texto: Nuno Galopim

A década de 60 chegava ao fim com uma das suas bandas mais icónicas entregue a um momento de crise sem precedentes. Uma ação judicial contra Jim Morrison (por “exposição indecente” durante um concerto em Miami) e o seu cada vez mais grave caso de alcoolismo eram duas nuvens assombradas sobre as rotas de futuro que o grupo encarava. E convenhamos que a visão – desafiante, mas então mal compreendida – que tinham assumido em Soft Parade, um disco que apostara numa dimensão cénica mais elaborada para as suas canções, não estava igualmente a falar em favor de visões mais positivas para um futuro que parecia de perspetivas mais toldadas do que encorajadoras. Deram concertos, com a possibilidade de edição de um disco ao vivo na agenda, mas o processo de pós-produção foi tão longo e complexo que Absolutley Live acabou por chegar às lojas apenas em julho de 1970. E perante o panorama atribulado que se vivia, a decisão de voltar a estúdio para gravar um disco novo acabou por transformar uma tentativa de remediar o clima tenso que se vivia entre o grupo num episódio de reencontro e transformação. E assim, uma vez mais com o produtor Paul Rotchild (mas naquela que seria a sua última colaboração em estúdio com os Doors) nasceu um disco que seguiu caminhos diametralmente opostos aos do anterior Soft Parade, procurando sobretudo reencontrar a alma original que cimentara as primeiras visões (e gostos) da banda… E das memórias (fundadoras) feitas entre heranças dos blues, eis que nasce Morrison Hotel.

         Na verdade, o disco acaba por ser mais um episódio de reencontro e transição do que exatamente uma partida clara para novo território, sendo de resto mais evidente essa mesma noção de novo espaço no seguinte L.A. Woman. E às novas canções – como Roadhouse Blues ou Peace Frog, que sugeriam esses novos azimutes – na verdade o álbum juntou uma série de pistas anteriores, seja no caso de uma canção que começara a ganhar forma em sessões em 1968 (Waiting For The Sun) ou até mesmo recuperando gravações antigas (como o caso de Indian Summer, que data das sessões do álbum de estreia e que não esconde evidentes afinidades com The End).

         Apesar das fontes tão díspares da origem dos temas, o alinhamento final de Morrison Hotel revela coerência e um sentido de visão. Há aqui uma narrativa, dividindo as canções entre uma face (do vinil) à qual chamam “Hard Rock Cafe”, que era até o título de trabalho originalmente usado em primeiras sessões. “Morrisson Hotel” é, por sua vez, o subtítulo da face B… Ambos os títulos correspondiam a estabelecimentos (reais) que então existiam na “baixa” de Los Angeles, e junto aos quais o grupo foi então fotografado. O gerente do Morrison Hotel – um hostel barato – não estava contudo lá muito virado para autorizar a sessão fotográfica, pelo que as imagens que o tempo mitificou surgiram num momento em que, obrigado a afastar-se do balcão por uns momentos, o fotógrafo e os músicos terão aproveitado a fresta de oportunidade para gerar as fotos que hoje todos conhecemos.

         Esta narrativa é uma das várias que se contam na edição especial que assinala agora os 50 anos de Morrison Hotel. A caixa junta o álbum original nos suportes de LP e CD e acrescenta um segundo CD no qual foca sobretudo atenções em vários takes de Roadhouse Blues e Queen Of The Highway, esta última mais uma canção com uma história que precede a criação do disco e cuja evolução formal aqui conseguimos observar, desde as visões originais mais jazzy até à leitura definitiva que o álbum fixou. Esta janela sobre processos de mutações em curso, juntando ainda outros episódios ocorridos nas sessões de gravação – onde emergiram versões de clássicos da Motown ou de Muddy Waters – fazem do CD extra desta edição um documento revelador dos ambientes de trabalho de um disco no qual os Doors reencontraram um caminho… É claro que tudo estava ainda seguro por arames… O rosto sem barba de Jim Morrison nas fotos que vemos na capa e contracapa não é mais senão uma consequência da presença (próxima) de comparências em tribunal relativamente ao “caso” de Miami. Mas apesar da carga icónica destas imagens (e das histórias que elas nos contam), a força primordial que o grupo reencontra nas sessões que geraram Morrison Hotel ficou evidente num disco que hoje podemos recordar como um dos melhores momentos da sua discografia.

“Morrison Hotel (50th Anniversary Edition), é uma caixa com um LP e dois CD, igualmente disponível nas plataformas digitais, numa edição da Rhino/Warner

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