E do confinamento nasceu mais uma obra-prima

Assinado em parceria com o seu mais direto colaborador Warren Ellis, embora em sintonia com o percurso dos discos mais recentes gravados com os Bad Seeds, “Carnage” surgiu de surpresa e confirma o grande momento criativo que Nick Cave está a viver. Texto: Nuno Galopim

Das reflexões ao piano que Brad Mehldau criou em confinamento e gravou na primavera passada às canções que Talyor Swift ou Charlie XCX registaram em álbuns de 2020 que traduziram igualmente a sua relação com os dias difíceis que todos ainda estamos a viver, o mundo da música tem já fixado em disco alguns ecos destes tempos estranhos, inesperados e assombrados. Porém, chegados ao final de 2020, quando me perguntaram qual seria o “disco do ano”, além de procurar uma escolha que musicalmente me agradasse em pleno, apontei a seleção a um disco que, de certa forma, materializou em si o que foi um ano feito de muita solidão e distanciamento. Gravado ao vivo no Alexandra Palace, em Londres, com plateia vazia e nada mais senão um piano sobre o palco, um concerto de Nick Cave, transmitido a 23 de julho, tornou-se referência de uma realidade diferente com a qual os tempos nos obrigaram a viver. Mas a vontade de retratar 2020 em disco, por parte de Nick Cave, não ficou por ali. E semanas depois de Idiot Prayer (o registo no Alexandra Palace) eis que surgiu, pela Deutsche Grammophone, L.I.T.A.N.I.E.S., uma ópera de câmara com música de Nicolas Lens para a qual Nick Cave escreveu o libreto, na forma de um ciclo de litanias. O modo como a obra ganhou forma, refletindo distância e um tempo de confinamento, fez igualmente deste disco um olhar pessoal (e partilhado) sobre este presente desconfortável… Se toda a gente julgava que Nick Cave tinha assim criado um díptico que refletia sobre estes dias, então nada como reconhecer o poder da surpresa com que, no final da semana passada, chegou Carnage, um terceiro disco criado em confinamento e que, mais do qualquer dos dois anteriores, olha de frente, pela música e pelas palavras, o universo de incertezas, tormentas, reflexões ou ilusões que um tempo de pandemia lançou sobre a humanidade. O pessoal e o coletivo fundidos numa reflexão maior, mais abstrata do que concreta, porém marcada por aquela visceralidade carnal que brota do real.

         Carnage é assinado em parceria entre Nick Cave e Warren Ellis. Não é uma assinatura inédita, mas até aqui surgia sobretudo em trabalhos de criação de música para cinema. O fulgor do par criativo é contudo bem evidente nos mais recentes álbuns gravados com os Bad Seeds e, de certa forma, Carnage representa uma expressão natural de um caminho que os imediatamente anteriores Skelenton Tree e Ghosteen já estavam a trilhar. Eletrónicas (num mergulho mais evidente do que nunca em Hand of God) e cordas desenham os ambientes sobre os quais a voz trilha um caminho que não segue o rumo mais clássico do canto, mas antes o de uma fala desenhada com música entre as palavras. Por vezes, como se escuta em OldTime ou no tema-título, uma pulsão rítmica (ora mais evidente, ora mais discreta) propõe uma estrutura mais evidente para as canções. Noutras, como em White Elephant, a força de um arranjo coral de alma gospel transforma as preces para dois numa comunhão ainda maior. Mas, como sublinham momentos particularmente emotivos como os que se escutam em Lavender Fields (e não consigo escutar esta canção sem a imaginar na banda sonora de um filme de Terrence Malick) e Hand Of God ou em episódios de maior vulnerabilidade e como sentimos em Albuquerque, o entendimento a dois entre Nick Cave e Warren Ellis alcança aqui outro momento superlativo. De certa forma este disco traduz o desaguar de dois rumos: o dos discos criados em tempo de confinamento e o que o caminho mais recente da obra de Nick Cave tem vindo a desenhar, revelando em si um raro gosto pelo desafio, uma inquietude (saudável) que o impede de se repetir, que o impele a olhar em frente (sem esquecer o que antes viveu).

Sabe bem, muito bem, senão cada vez mais, escutar cada novo disco de Nick Cave. E uma vez mais Carnage arrebata, surpreende e delicia. É certo que este disco nasceu já porque a estrada saiu do seu mapa em 2020 (e 2021)… Mas, mais ainda do que depois de Ghosteen, estas canções servem para reafirmar a vontade de um reencontro em palco. Que venha, mal seja novamente possível.

“Carnage”, de Nick Cave e Warren Ellis, está para já apenas disponível nas plataformas de streaming. Uma edição física em CD e LP está apenas agendada para 28 de maio.

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