53. Dennis Wilson “Pacific Ocean Blue” (1977)

O único elemento dos Beach Boys que praticava surf acabaria, já nos anos 70, por ser autor de um dos discos mais pessoais e assombrados entre os muitos que surgiram no universo do grupo californiano. “Pacific Ocean Blue” é obra a (re)descobrir. Texto: Nuno Galopim

Dennis Wilson era, de todos os elementos dos Beach Boys, aquele que fazia das imagens das primeiras canções do grupo o seu dia a dia. Na verdade era o único do grupo que praticava surf e que parecia protagonizar de facto o ideal californiano que aquelas canções celebravam. Baterista, só começou a ver a sua contribuição autoral para os discos do grupo a partir de 1968. Chegou a projetar um primeiro álbum a solo em inícios dos anos 70, mas algumas das canções que então terminou acabariam por surgir em discos dos Beach Boys. Mesmo assim, em meados dos anos 70, tinha já em mãos um corpo de canções que apresentou à Caribou Records, acabando por assinar um acordo para gravar dois álbuns (na verdade apenas um seria concluído). E foi assim que, aos poucos, gravadas em sessões espalhadas entre 1974 e 1977, todas elas gravadas nos Brother Studios (dos próprios Beach Boys) foi nascendo o alinhamento que daria então origem a Pacific Ocean Blue

O jovem surfista dos anos 60 tinha-se entretanto num homem que vivia uma série de conflitos pessoais. Mudanças no estilo de vida e tensões com os companheiros no grupo (isto sem esquecer um relacionamento com o clã de Charles Manson que deu que falar) acabar por ter impacte não apenas no rumo temático e emocional das canções, mas na própria voz que, outrora límpida, exibia por aqueles dias o tom rouco que vincaria, na verdade, a carga interpretativa com que o músico abordou cada canção.

O arco de tempo durante o qual o disco foi sendo criado e gravado manifesta-se na diversidade de climas e abordagens fixadas em canções nas quais a voz é o elo maior que tudo une, cabendo depois a um elaborado trabalho de estúdio a moldagem final de peças que, apesar dessa largura de horizontes, acabam afinal por ganhar o sentido de coesão que um álbum com identidade bem marcada exige. Assim acontece, notando-se por um lado afinidades com rumos pop/rock que os discos dos Beach Boys vinham a experimentar depois de Sunflower (1979), contando de resto com contribuições pontuais de vários outros elementos da banda numa e outra canção, mas no fim acentuando sobretudo as marcas de identidade de um espírito claramente mais assombrado do que aquele que marcara os hinos de sol e mar de outrora, procurando mesmo espaços de reflexão e até de mergulho interior. O mar está ainda por perto, mas o modo como surge aqui revela outros sentidos e cenografias. Pacific Ocean Blue é um álbum de tranquila intensidade, de uma beleza enorme e um dos melhores nascidos entre músicos dos Beach Boys na década de 70.

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