Dotados de visão e de um claro sentido de humor (que hes deu confiança para dizer o sim para representar a Bélgica na Eurovisão em 1980), os Telex têm a integral dos álbuns agora reunida numa caixa com som remisturado e remasterizado pelos próprios. Texto: Nuno Galopim

Foram durante anos um nome quase esquecido entre o panorama da pop europeia do seu tempo, estatuto felizmente transformado pela ainda recente edição de um ‘best of’ lançado pela Mute, que agora reedita a integral dos seus álbuns de estúdio. Os mais atentos ao fenómeno eurovisivo certamente lembravam “Euro-Vision”, a canção que levou, inesperadamente, os sons de uma emergente pop electrónica à Eurovisão em 1980 (quando os dez pontos dados por Portugal impediram depois a canção de ficar em último lugar). Mas mais significativos do que essa experiência – que sublinha o carácter bem humorado das atitudes do trio belga – os primeiros passos discográficos que os Telex protagonizam ainda em finais dos anos 70 integram-nos entre um grupo de pioneiros de uma nova forma de entender a canção pop, pelo que o seu álbum de estreia, Looking For St. Tropez, mesmo distante do patamar visionário que então reconhecíamos em álbuns seus contemporâneos lançados por nomes como os Kraftwerk, Yellow Magic Orchestra, D.A.F. ou Suicide, merece morar menos longe do esquecimento a que o tempo entretanto o votou.
Seguindo uma lógica de busca identitária como a qual levara os Kraftwerk a encontrar o seu caminho em inícios dos anos 70, os Telex surgem em 1978 com vontade de, através de uma ementa instrumental unicamente feita de sintetizadores, procurar um som europeu (por oposição às genéticas da cultura rock, de origem norte-americana). Estreiam-se assim, ainda nesse ano, com uma versão “electrónica” (e talvez sob eventuais tonalidades quase paródicas) de “Twist À St. Tropez”, um velho êxito dos Les Chats Sauvages (um dos grupos pioneiros do pop/rock francês, em inícios dos anos 60). Como segundo single apresentam uma versão, novamente electrónica, de “Rock Around The Clock”, o clássico imortalizado na leitura de Bill Halley. Mas quando chegou o seu álbum de estreia, e sem abdicar do tom sorridente com que se haviam apresentado nos dois singles que o tinham antecedido, mostram sinais mais pessoais de abordagem às formas e instrumentos com os quais trabalhavam. Editado em 1979, “Looking For St. Tropez” inclui outras versões no alinhamento – uma delas transformando metronomicamente o contemporâneo “Ça Planne Pour Moi”, de Plastic Bertrand – mas é entre originais como “Moskow Diskow” ou “Pakmoväst” que encontramos o melhor da contribuição do grupo para a construção de sinais de mudança que em breve transformariam o panorama da música popular.
Recorde-se que estavam ainda por chegar os êxitos maiores dos Human League, Soft Cell, Depeche Mode ou Yazoo que fariam da pop electrónica uma linguagem corrente e muitos eram ainda os espíritos para quem música electrónica não era… música. Pois… Convenhamos que o álbum de estreia dos Telex, não se pode, de modo algum, comparar aos discos que, pouco depois, nos apresentariam nomes como os já referidos Soft Cell ou Depeche Mode, e também Yello ou New Musik. Mas abre caminhos que são diretamente seguidos em “Neurovision”, segundo álbum talhado em sintonia com o disco de estreia e no qual surge a mítica canção que os levou à Eurovisão. E depois, mas sem o mesmo impacte, seguiram-se os álbuns “Sex” (disco de 1981 no qual as letras são assinadas pelos irmãos Ron e Russel Mael, ou seja, os Sparks), “Wonderful World” (1984) e “Looney Tunes” (álbum de 1988 que inclui uma homenagem a Spike Jones), tendo o grupo apresentado em 2006, depois de um longo silêncio, um sexto álbum: “How Do You Dance?”, disco no qual “regressam” à Eurovisão com uma versão de “J’aime La Vie” de Sandra Kim (a vencedora de 1986) e onde lembram os companheiros de aventura de 1981, os Sparks, recriando o seu “No. 1 Song in Heaven”).
Por essa altura tinham já surgido primeiros olhares panorâmicos sobre a sua obra num díptico de 1999 que juntava a compilação “best of” e um disco de remisturas… Mas o entusiasmo foi então coisa pontual.
Por volta de 2020 de um ano Michel Moers e Dan Lacksman, os dois elementos vivos da banda (Marc Moulin deixou-nos em 2006) arregaçaram as mangas e mergulharam no arquivo de gravações dos Telex. Remasterizaram 60 canções, entraram em contacto com a Mute Records do qual surgiu, em 2021, a compilação “This is Telex”, cartão de visita aos públicos do século XXI convidando-os a (re)descobrir uma obra pioneira do século XX. Ao contrário do ‘best of’ de 2021, que juntava dois inéditos achados entre os arquivos do grupo – versões de “The Beat Goes On” (Sonny & Cher) e “Dear Prudence” (Beatles), a nova caixa limita-se a recuperar o alinhamento (e o grafismo) dos discos originais. Pena as linear notes do booklet de dieta se limitarem a dois brevíssimos textos de Moers e Laksman e às fichas técnicas dos álbuns, perdendo a oportunidade para ali mesmo, junto à música, contar a história destes discos.
“Telex”, dos Telex, é uma caixa de 6LP, também disponível em CD, numa edição da Mute Records.





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