Ao mesmo tempo que chega o documentário à plataforma Netflix eis que entram em cena novas caixas (em vinil e CD) e um álbum duplo que recuperam o percurso que os Wham! editaram em singles originalmente lançados entre 1982 e 1986. Texto: Nuno Galopim

E, de repente, está toda a gente a falar novamente sobre os Wham! Na verdade as agendas dos acontecimentos não são frutos do acaso e é claro que a estreia do documentário da Netflix e o lançamento de novas edições de arquivo focadas nos singles dos Wham! surgiram cientes uma da outra, ambas colocadas no mapa no momento em que passam precisamente 40 anos sobre a edição de “Fantastic”, o álbum de estreia do grupo que teve vida discográfica entre 1982 e 86 e representou, apesar de antes ambos os músicos terem já passado por uma outra banda (os The Executive, moldada em torno de um revivalismo ska que surgira no Reino Unido na viragem dos anos 70 para os 80), o veículo de apresentação ao mundo do talento de George Michael, assegurando-lhe sobretudo espaço para desenvolver confiança como cantor, compositor e, finalmente, produtor. Tal como o documentário deixa claro, o percurso dos Wham! traduziu uma ideia de celebração de juventude e, acima de tudo, foi expressão da enorme amizade entre os dois músicos, sublinhando o filme o modo como, apesar de muito parodiado e mal compreendido na altura (o que mostra que esta coisa de não entender o que se passa e “gerar” opinião mal informada não é exclusivo da era das redes sociais), Andrew Ridgley foi aqui o verdadeiro motor de arranque, a força que ajudou a colocar a ideia em marcha, motivando o vocalista, cedendo-lhe progressivamente espaço de decisão, definindo a imagem do grupo e, reconheça-se, sendo parte ativa na criação das primeiras canções, entre elas “Careless Whisper”, que seria, em 1984, editada como single de estreia a solo de George Michael, mas em cujos créditos os dois nomes estão assinalados. Afinal as primeiras linhas da canção nasceram dos seus dedos, na sua guitarra. Agora, 40 anos depois de “Fantastic”, com a história devidamente contada, eis que vale a pena voltar a olhar para uma das mais fulgurantes obras da pop dos anos 80.
Mais do que uma banda de álbuns (mesmo tendo “Fantastic” e “Make It Big” atingido o número um em vários territórios, a eles tendo-se juntado, nos EUA, o terceiro “Music From The Edge of Heaven”, na verdade juntando material de singles e EPs de 1984 a 86), a real força dos Wham! brotava, na mais clássica tradição pop, da força dos seus singles. E, apesar de reconhecidos hoje por memórias de momentos de celebração e festa – como “Wake Me Up Before You Go Go”, “Club Tropicana” ou o mais tardio “I’m Your Man” – e de toda a carga de adoração juvenil que então tomou proporções globais (incluindo a China), a obra dos Wham! começou por ser desenhada através de pequenos hinos de afirmação geracional, ora falando do desemprego ora da necessidade de fuga à realidade de um quotidiano cinzento que então caracterizava a sociedade britânica (o mesmo que havia gerado, como expressão de contraste, toda a então recente vaga new romantic ou que era traduzido pela alma assombrada de novas bandas indie suas contemporâneas). “Wham Rap (Enjoy What You Do)” e “Young Guns (Go For It)”, mais até do que o sucessor “Bad Boys” (que no filme é descrito como um momento gerado através do recurso a uma “fórmula” na composição), não só convocaram linguagens do emergente rap e do funk como traduziam ecos de realidades do quotidiano juvenil que valeram aos Wham! primeiros focos de elogio na imprensa musical. Elogios que se transformaram em suspeita quando, ainda em 1983, entrou em cena “Club Tropicana”, visto por alguns como canção frívola, mas que na verdade não era mais do que um olhar sobre os dias de escape e ilusão que muitos então começavam a viver em zonas mais solarengas da Europa. Enfim, a exuberância das imagens ligadas à cultura pop na aurora da era do teledisco fez particular comichão a quem criava opinião escrita sobre música, com contraste notório em espaços como a “The Face” ou “Smash Hits” (onde escrevia Neil Tennant), mas essa conversa não é a que vamos seguir hoje…
“Club Tropicana”, que curiosamente corresponde a uma das canções da maquete inicial de apresentação dos Wham!, foi aqui o ‘clic’ que sugeriu novos caminhos que, de certa forma o mais discreto EP “Club Fantastic” (ainda em 1983) igualmente explorou. O passo seguinte resultava de uma tremenda guinada evolutiva. Se dos primeiros dois singles (editados em 1982) para “Fantastic!” O percurso de evolução havia reparado na rota de afirmação de George Michael como autor das canções (e não mais o par inicial), a chegada a 1984, traduziu a sua ascensão ao lugar de produtor, chamando a si a concretização das visões que tinha para as canções. A primeira expressão deste processo surgiu em “Wake Me Up Before You Go Go”, onde heranças da pop de outros tempos surgiam projetadas num hino festivo, que abriu caminho a uma etapa na qual, em mais do que uma ocasião (como em “Freedom”, uma possível afirmação da conquista da liberdade criativa, ou, mais adiante, em “The Edge of Heaven”) encontrarmos ecos pela admiração por grandes “escolas” do universo do R&B, nomeadamente a Motown. A evolução da obra dos Wham! juntaria ainda em 1984 uma canção de Natal que se tornou num dos maiores clássicos da quadra (“Last Christmas”) e uma visão pop irrepreensível no belíssimo “Everything She Wants”, um dos singles mais perfeitos da carreira do duo. As digressões na China e EUA entre 1984 e 85, as dores do crescimento e uma noção de que, para continuar a evoluir artisticamente era preciso a George Michael deixar para trás esta etapa de juventude, ditaram um fim que se começou a desenhar em “I’m Your Man” (1985) e concretizou no EP “The Edge of Heaven”, este sendo parte do capítulo do adeus ao qual se juntou um álbum e um concerto de despedida, ambos sob o título “The Final”.

E a coisa ficou mesmo por aí, raras tendo sido as vezes em que, a solo, o próprio George Michael, regressaria a este repertório. É verdade que cantou frequentemente “Everything She Wants” e “I‘m Your Man”, mas só em muito poucas ocasiões “Freedom” e “The Edge of Heaven” e, ao que parece uma única vez, “Last Christmas”. E nada mais… Em 1997 o catálogo juntou à obra do grupo uma nova compilação, “The Best of Wham! (If You Were There)”, título inspirado pela versão de um clássico dos Isley Brothers que surgira em “Make It Big”. Por essa altura uma remistura de “Everything She Wants” foi editada como single. Em 2020 uma outra compilação juntava os singles e telediscos editados no Japão. No ano passado e já em 2023 surgiram, apenas em formato digital, novas remisturas de “Club Tropicana”. Agora, com maior fôlego, a campanha “The Singles (Echoes From The Edge Of Heaven)” apresenta abordagens ao catálogo canónico dos singles (ou seja, os que foram editados entre 1982 e 1986, excluindo por isso eventuais remisturas posteriores) em diversos formatos. A edição da caixa em vinil inclui os singles, nas versões de sete polegadas, “Wham Rap (Enjoy What You Do)”, “Young Guns (Go For It)”, “Bad Boys”, “Club Tropicana”, “Wake Me Up Before You Go Go”, “Freedom”, “Last Christmas/Everything She Wants”, “I’m Your Man”, “The Edge of Heaven” e “Where Did Your Heart Go?/Battlestations”, o EP “Club Fantastic”, o single extra “Interviews: Fan club gift from Wham!”, um livro, uma cassete, postais e alguma memorabilia. A caixa em CD inclui dez CD Singles (junta os dois de 1986 na forma original do EP “The Edge Of Heaven”), mas em cada um acrescenta (se for o caso) as faixas adicionais das respetivas edições em formato de máxi-single de 12 polegadas, abarcando assim as remisturas originais de muitas destas canções. Há ainda um 2LP que junta os singles (exceto a megamix de “Club Fantastic”), alguns lados B e remisturas da época. Os mais atentos seguidores poderão notar a ausência de inéditos. Faixas como “Whamshake” ou “Soul Boy”, que nunca passaram de maquetes, dificilmente verão a luz do dia. Mais provável, segundo palavras recentes de Andrew Ridgley, será, num futuro próximo, um eventual novo disco com gravações ao vivo.
“The Singles: Echoes From The Edge of Heaven”, dos Wham!, está disponível como caixa em vinil, caixa em CD e 2LP numa edição da Epic/Sony Music.




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