Traduzindo o momento mais inspirado do trabalho a quatro dos Blur desde o álbum “13” nascido à beira do milénio, o novo “The Ballad of Darren” traduz o bom clima que se vive entre um grupo já com 33 anos de vida pública e abre possibilidades futuras. Texto: Nuno Galopim

Foi uma surpresa. Uma boa surpresa. A ideia de reunião não era necessariamente inédita, vários que tinham já sido os momentos em que, depois do silêncio que se seguiu a “Think Tank” (2003), os Blur surgiram aqui e ali entre palcos, singles e até mesmo um álbum (um pouco para esquecer). Mas, depois de anunciado um reencontro com as plateias no estádio de Wembley (coisa que esgotou num ápice uma data e obrigou à marcação de uma segunda), eis senão os Blur dão a saber que tinham na linha do horizonte um novo álbum que, na verdade, corresponderia a um reencontro com modos de trabalho de outros tempos, criando assim o real sucessor de “13” (1999) que nem o disco de 2003 representara (já que, salvo numa canção, a formação estava aí reduzida a um trio) nem, pelo modelo de criação, “The Magic Whip” (2015) traduzira. As expectativas foram positivamente adubadas quando, a 18 de maio, o single de avanço “The Narcissist” nos revelou uma canção do calibre dos hinos clássicos dos Blur. E agora, ao finalmente escutarmos “The Ballad of Darren”, eis que se manifesta a saborosa confirmação: não só temos nos Blur uma banda que em nada viu o tempo a erodir a sua capacidade criativa como, na verdade, encontramos aqui um disco a juntar aos títulos que, sobretudo entre “Modern Life Is Rubbish” (1993) e “13”, se afirmou como um dos casos maiores entre os nomes que moldaram e marcaram a música popular da geração de 90. 

Álbum de reencontro, “The Ballad of Darren” nasce entre quatro amigos que se conhecem, entendem e complementam. É o ponto de renovada confluência de percursos bem distintos entre si, levando a um espaço comum um Damon Albarn dividido entre inúmeros projetos e geografias, um Alex James feito produtor de queijos e autor publicado, um Dave Rowntree com percurso na política e recentemente com um álbum a solo lançado e um Graham Coxon sempre entregue a demandas pessoais e a inesperadas colaborações. Em conjunto trazem consigo toda a carga de vivências que só o tempo pode somar. E é precisamente essa noção de tempo vivido, de experiências enfrentadas, de dores e perdas, mas também do prazer de voltar a estar entre amigos, que alimenta as entranhas de um disco que se escuta com um sorriso mas que, no plano que as palavras desenham, revela os abismos que a passagem dos anos foi destapando. Apesar de nascidas de esboços e maquetes trabalhadas pelo incansável Damon Albarn durante uma digressão com os Gorillaz, envolvendo inclusivamente a transformação de uma canção que ele mesmo havia já gravado a solo, “The Ballad of Darren” ganhou carne e osso em sessões conjuntas que os levaram a estúdio entre janeiro e maio deste ano. Assim ganhou forma um disco sóbrio, elegante, de arestas limadas, sobretudo tranquilo e com algumas canções que prometem ficar na lista das melhores dos Blur (“Barbaric” aqui é single em potência a juntar à discografia mais dia, menos dia). Diz quem já os viu ao vivo na presente digressão que a emoção do reencontro em palco é coisa viva e evidente. O álbum, sem dúvida, traduz a pulsação desse corpo vivo e saudável que volta a respirar a quatro. E que, possivelmente, não ficará por aqui…

“The Ballad of Darren” dos Blur está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Parlophone/Warner.

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