Gravação do concerto-surpresa integrado na edição de 2022 do Festival de Newport (onde a cantora não atuava desde 1969), o álbum agora editado traduz o instante em que, com plateia pela frente, cantora e amigos recriaram os ambientes de uma “Joni Jam”. Texto: Nuno Galopim

Foi uma surpresa e ganhou forma há um ano. Depois de atuar no palco do Festival de Newport, a cantora Brandi Carlile pegou no microfone para falar com a plateia enquanto uma multidão de roadies ia enchendo o palco com microfones, bancos e um grande cadeirão ao centro. E a azáfama fez-se revelação quando, a fechar esse pequeno discurso, Brandi anunciou que, de regresso àquele festival, desde que ali passara pela última vez em 1969 ali estava… Joni Mitchell! Era o regresso, inesperado, sete anos depois de um aneurisma que a obrigada a um processo de longa e lenta recuperação que nem as recentes presenças públicas numa festa de celebração do seu próprio 75º aniversário ou nos Grammys faziam antever. Joni Mitchell estava de regresso a um palco, mas desta vez não o fazia nem para agradecer aos que a homenageavam ou para falar. Desta vez ia mesmo cantar.

“Joni Mitchell at Newport” é, agora, o documento desse reencontro. Começa precisamente com o discurso de apresentação por Brandi Carlisle, passa pelo momento da revelação da (boa) surpresa e, depois, um alinhamento que passa por alguns dos seus grandes clássicos, aqui e ali acompanhando as canções com algumas palavras e histórias, traduzindo ali, à frente de todos, o que era um hábito “familiar” em sua casa: o palco não apresentava exatamente um concerto de Joni Mitchell, mas uma expressão pública de uma Joni Jam, ou seja, uma daquelas ocasiões em que, na sua sala, também sentada num cadeirão, uma das maiores cantautoras de todos os tempos junta amigos para cantar. Os alinhamentos costumam incidir nas suas canções mas incluem também as criações dos outros. E o que escutamos nesta ocasião com plateia pela frente não foi exceção, apresentando uma belíssima versão de “Summertime”, o clássico que nasceu no “Porgy and Bess” dos irmãos Gershwin. 

O álbum, que representa a primeira edição de uma nova gravação de Joni Mitchell desde “Shine” (2007), apresenta um alinhamento que passa precisamente pelo tema-título desse disco e revisita “Come In From The Cold” (de “Night Ride Home”, de 1991), mas centra o seu tutano nas memórias clássicas dos  inconformáveis “Big Yellow Taxi”, “A Case of You” e “Both Sides Now” e passa ainda por canções de álbuns como “Court and Spark” (1974) ou “Hejira” (1976) ou o ultra-aclamado “Blue” (1971). Traduzindo o modelo das “Rams” caseiras, este momento captado em palco vive do diálogo e partilha das canções (e aqui Brandi Carlisle é a principal parceria da cantora veterana), sem contudo desviar o protagonismo da voz de Joni Mitchell, hoje mais grave mas não menos intensa, carregada de todo um quadro de novos sentidos que certamente deixaram arrepiada aquela plateia, num conjunto de sensações que a gravação de facto consegue captar e comunicar. É verdade que muitos discos ao vivo são meros instantes de fixação da essência do que se viveu em digressões muitas vezes feitas de alinhamentos com pontuais variações. Há contudo discos gravados ao vivo que guardam e eternizam momentos históricos. Este, claramente, cabe neste último grupo (apresentando como complemento um texto de Cameron Crowe). E é delicioso. 

“Joni Mitchell at Newport”, de Joni Mitchell, está disponível em LP e em CD numa edição da Rhino.

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