Depois do atípico (mas em tudo capaz de traduzir os sinais dos tempos) “Their Satanic Majesties Request” (1967) os Rolling Stones criaram, entre 1968 e 1972, a mais incrível sucessão de álbuns de toda a sua discografia, entre os quais afirmaram definitivamente a demarcação do tronco central da sua identidade. E o que fazer depois de discos como “Beggars Banquet” (1968), “Let It Bleed” (1969), “Sticky Fingers” (1971) e do magistral “Exile on Main Street” (1972)? Editado a 31 de agosto de 1973, surgindo assim como o primeiro álbum dos Stones a entrar em cena depois do assinalar do seu décimo aniversário (a contar desde a edição do single de estreia), “Goats Head Soup” surgiu sob olhares com expectativas nos mais altos patamares, mas também num tempo de mutações e convulsões nas vidas pessoais dos músicos. Mesmo sob o impacte global de “Angie” (que não tem nada a ver com a primeira mulher de David Bowie, apesar do mito urbano que prevaleceu), o álbum ficou longe da unanimidade alcançada pelos quatro antecessores e, muitas vezes, é apontado como o título final de uma etapa “clássica” na obra do grupo, atribuição que, contudo, pode muito bem ser contestada pelas características do sucessor “It’s Only Rock’N’Roll”, de 1974, o último que gravam com Mick Taylor como guitarrista. Enfim, não vamos por aí…

O tempo muitas vezes ajuda a ver as coisas com mais atenção (e menos intensidade). E, de facto, com a passagem dos anos, outros olhares sobre este disco de 1973 começaram a reavaliar as qualidades do seu alinhamento. Sem esquecer a linhagem que o precedia mas sem nela encontrar uma bitola inevitável para gerar termos de comparação. E na verdade, 50 anos depois, mesmo reconhecendo que não está aqui um título tão marcante quanto de facto o foram os que fizeram o quarteto fantástico de 1968 a 72, “Goats Head Soul” afinal mantém firmes as mesmas qualidades desses quatro discos, revelando tanto a reafirmação de raízes identitárias como reflexos do que, entretanto, ia acontecendo ao seu redor. 

Longe do ambiente de sala de ensaio da villa de Keith Richards onde grande parte do álbum anterior ganhara, este disco nasceu entre estúdios em Londres, Los Angeles e Kingston, desta última cidade não transparecendo, curiosamente, aparentes contaminações com a riquíssima cultura musical local. Entre as sessões – as últimas com Jimmy Miller na produção – nasceram canções magníficas que talvez o impacte colossal de “Angie” tenha ofuscado. Baladas como “Coming Doen Again” ou “Winter”, a incursão pela pulsação primordial do rock’n’roll em “Star Star”, os inevitáveis sabores a blues de “Hide Your Love”, novos encontros com o som clássico dos Stones da fase 68/72 em “Silver Train” ou Doo Doo Doo Doo Doo (Heartbreaker)” (que foi escolhido como segundo single) ou o sedutor e exploratório “Can You Hear The Music” que procura pistas entre recentes pistas lançadas em territórios R&B e funk, são argumentos mais do que suficientes para nem reduzir o álbum ao impacte de “Angie” nem a um estatuto menor no quadro da discografia do grupo. Em caso de dúvida, nada como um reencontro com estas canções.

One response to “Rolling Stones “Goats Head Soup” (1973)”

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