Cara pintada de branco, casaco estilizado ao jeito de um Dr. Caligari, cantando ora versões de Marlene Dietrich, ora árias de Purcell ou Saint Saëns, ora devaneios electro pop ou até cantos de tamanha melancolia e desespero, cruzando a urgência pop da emergente new wave com o canto lírico. Foi como um “ovni” na cena musical nova iorquina de finais de 70 e inícios de 80. Em 1981, o álbum de estreia “Klaus Nomi” incomodou puristas, mas arrebatou espíritos ávidos de novidade. No ano seguinte, um segundo álbum, “Simple Man”, vincava a sua aproximação à pop. Mas por essa altura eram já visíveis os traços de debilidade que a doença decretara sobre o seu corpo. A Sida, de que se começava a falar, levou-o cedo demais em 1983.

“Quem é Klaus Nomi? Um discreto mas brilhante génio ou uma farsa total? A oitava maravilha do mundo ou um erro trágico na linha de montagem da vida?” Estas palavras de dúvida foram publicadas em 1980 na imprensa nova-iorquina. Questões que não tinham de todo incomodado David Bowie que, anos antes, o levara a um estúdio de televisão, juntamente com Joey Arias, para com ele apresentar duas canções numa emissão do “Saturday Night Live. Era então um talento emergente nas franjas menos mainstream da borbulhante cena underground nova-iorquina, com tudo para passar bem longe das atenções. Mas, na verdade, o tempo de Klaus Nomi foi em tudo o certo. Militante new wave e fruto de uma etapa de saudável loucura criativa na cidade, era um alemão, residente em Nova Iorque desde 1972, dotado de um registo vocal invulgar, isto numa época em que estava ainda longe a abertura de espaço de interesse pelos contratenores que hoje anos depois voltariam a dar novas vidas sobretudo a grandes criações da ópera barroca. 

Entre espetáculos de vaudeville “alternativo” foi ganhando espaço e cultivando uma personagem que chegou aos ouvidos de Bowie. Entre o encanto pelas heranças de outras épocas e a uma nova linguagem pop que se desenhava na altura (atenta à emergência dos sintetizadores), gravou um primeiro álbum em 1981 ao qual deu o seu nome e que se transformaria numa verdadeira peça de referência pelo modo ímpar como juntava esses dois mundos e apresentava a sua voz. Era diferente de tudo e todos… Um ano depois regressou a estúdio para gravar um segundo álbum onde, uma vez mais, cruzava ecos de um passado distante (em concreto revisitando uma ária de Purcell e composições de John Dowland) com alguns originais inéditos, sob evidente protagonismo instrumental dos sintetizadores, juntando ainda ao alinhamento uma versão de “Falling In Love Again” (imortalizada por Marlene Dietrich), uma outra de “Ding Dong” (da banda sonora de “O Feiticeiro de Oz”) e ainda uma de “Just One Look” (originalmente gravada por Doris Troy em 1963). Convém acrescentar que quando trabalhou este disco Nomi estava já certamente doente, tendo morrido de complicações de sida no ano posterior à sua edição. Com edição póstuma surgiram depois a compilação “Encore” (1983) e o registo ao vivo “In Concert” (1986), ambos agora reunidos aos dois álbuns de estúdio numa caixa que só não traduz a integral de Klaus Nome já que deixa de fora “Za Bakdaz”, a ópera que deixou inacabada mas que conheceu edição em disco em 2008. 

“Nomi” é uma caixa de 4 LP editada pela Legacy/Sony Music

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