Foi em tempos de crise dentro dos Roxy Music e, depois, entre momentos de pausas, que Bryan Ferry começou a trilhar um rumo discográfico, apresentando, a partir de 1973, uma obra por vezes apontada à recriação de canções dos outros, mas depois, sobretudo a partir de “In Your Mind” (1977), o cantor começou a apontar também aos seus discos muitas das canções que ele mesmo ia assinado. Depois do ponto final na carreira criativa dos Roxy Music – assinalado em 1982 com o mítico “Avalon” – os originais passaram a conhecer maior protagonismo entre os seus discos. O que não o impediu de, frequentemente, dedicar álbuns inteiros a versões, como de facto fez com “As Time Goes By” (1999), “Frantic” (2002) ou “Dylanesque” (2007). Na primeira metade dos anos 90, numa altura em que preparava o sucessor de “Bête Noite” (1987), o seu segundo álbum a solo a seguir à separação dos Roxy Music, Bryan Ferry acabou por remeter os trabalhos em curso à gaveta. E em vez de um novo álbum com originais seus, acabou por editar, em 1993, o álbum “Táxi”, que o levava a superar uma etapa pessoal difícil (a que ele mesmo aludiu depois em entrevistas). Um ano depois, sob os resultados da boa receção de “Táxi”, eis que da gaveta saíram as ideias que deixara entretanto a marinar… Mas “Mamouna”, o disco então apresentado em 1994, era um álbum com um alinhamento diferente daquele no qual antes estava a trabalhar. E nem sequer aos lados B dos singles extraídos de “Mamouna” foram levadas as canções que, então, ficaram guardadas. Até que, 29 anos, depois, e numa edição especial, o álbum “Horoscope”, então arquivado (e incompleto), vê a luz do dia.

Não são raras as histórias de discos arquivados que, anos mais tarde, acabam mesmo por ver a luz do dia… Dos Duran Duran, por exemplo, espera-se para breve a edição de “Reportage”, um álbum de cunho mais elétrico no qual estavam a trabalhar depois de “Astronaut” e que deixaram de lado quando partiram para criar “Red Carpet Massacre” (2007). O alinhamento deste “Horoscope” no qual Ferry trabalhava quando mudou de ideias para apanhar um “Taxi” surge agora como extra de uma reedição de “Mamouna”, mostrando as canções como estavam naquela etapa de gravação de maquetes, ou seja, com linhas já bem claras, mas ainda sem arranjos finais nem os cuidados meticulosos com os quais a mistura depois lhes daria as formas finais, partilhando na verdade algumas (poucas) faixas com as que depois rumaram ao álbum de 1994 mas, sobretudo, mostrando peças que, por aqueles dias, Ferry acabou mesmo por abandonar.

“Horoscope” é um tesouro de arquivo. Uma interessante curiosidade. Mas não ofusca o belo “Mamouna” que aqui acompanha, disco que correspondeu a um momento de reencontro de Bryan Ferry com velhos parceiros nos Roxy Music, inculusivamente Brian Eno, que abandonara a banda em 1973. Mais na linha do que sugerira em “Boys and Girls” (1985) do que no sucessor “Bête Noite”, “Mamouna” é talvez o melhor álbum a solo feito de originais que Bryan Ferry criou depois dos Roxy Music. O sentido apurado de cenografia, o foco no detalhe, a elegância das formas, traduz sem surpresa uma ligação direta aos caminhos definitivamente fixados em “Avalon”, que de certa forma marcaram grande parte da obra de Ferry a solo depois de 1982. Mas em nenhum outro momento do seu percurso a solo encontramos outro disco que consiga procurar, sob uma requintada coleção de novas canções, um caminho possível depois de “Avalon”. Em discos de versões houve mais (e mais diferentes) ideias. Mas no campo dos originais, poucas vezes conseguiu ir para lá das sombras desse álbum mítico de 1982.

“Mamouna – Deluxe Reissue”, de Bryan Ferry, está disponível em 2LP e nas plataformas digitais numa edição da BMG. Há uma edição em 3CD que junta um disco extra com esboços, versões alternativas e instrumentais de canções deste álbum.

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