Será chover no molhado voltar a contar a história da (determinante) contribuição dos New Order para a criação de uma rota convergente entre a música de dança (e as electrónicas) com o ADN da cultura indie. De facto, depois de um primeiro single que ainda nasce de terreno Joy Division (com Ian Curtis ainda creditado como um dos autores de “Ceremony”), e ainda um álbum de estreia assombrado pela memória recente da banda cujo percurso fora subitamente interrompido pela morte do vocalista, o caminho dos New Order, depois de cruzado com uma primeira passagem pelos clubes de Nova Iorque, levou-os gradualmente a repensar o seu rumo, juntando ao seu corpo os sintetizadores, uma teclista e, com progressivamente mais marcante presença de disco para disco, as programações que foram acentuando uma pulsação rítmica mais próxima da pista de dança face ao que era até então o mood mais frequente em clima pop/rock “alternativo”. Em 1982, em “Everything’s Gone Green” (ainda com produção de Martin Hanett, que acompanhara a criação da obra em disco dos Joy Division), os sinais de busca são já evidentes. Mas é em 1983, ao som de “Blue Monday” que definem um paradigma com uma canção que, de resto, se torna numa das referências maiores da história da música popular na década de 80. E depois, ao som de canções como “The Perfect Kiss”, “Sub-Culture”, Bizarre Love Triangule” ou “True Faith”, reafirmaram a opção por um caminho que deu aos New Order um espaço próprio na história da música, libertando-os da sombra da etapa vivida como Joy Division.
Em 1987 uma compilação juntou num suporte de álbum duplo o percurso até aí criado em lançamentos de singles (sobretudo máxis) a 45 rotações, em parte correspondendo a canções que não haviam sido incluídas no alinhamento de álbuns. Um dos discos de “Substance” juntava esse segmento, completo, de “Ceremony” a “True Faith”, apresentando o LP2 o mesmo caminho através dos lados B dos respetivos máxis. De fora ficaram, claro, os belíssimos “Fine Time” (1988) e “Round and Round” (1989) que, juntamente com “Regret” (1993), correspondem às peças finais deste mesmo ciclo de acontecimentos numa obra que enfrentaria um hiato após a separação que se seguiu ao álbum “Republic”, retomando o caminho em 2001 com “Get Ready”.

Este olhar sobre a etapa mais suculenta da obra dos New Order acaba de conhecer uma reedição que, em vinil, replica o álbum duplo de 1987 mas que, em CD e nas plataformas digitais apresenta um terceiro disco com mais remisturas, versões alternativas e lados B adicionais deste mesmo período e, depois, um quarto com um registo captado ao vivo em Irvine Meadows, na Califórnia, em setembro de 1987, num alinhamento que replicou, de fio a pavio, e em sequência, o historial de singles que o disco 1 de “Substance” então propunha. De fora desta nova abordagem ficou a versão remisturada “Blue Monday 88” que conheceu edição em 45 rotações em 1988 e que, talvez por ficar para além do arco 1981-1987 abordado em “Substance”, não conheceu ordem para entrar nesta edição especial. Na verdade, ainda bem… (já que nada acrescentava de relevante à leitura original da canção).
“Substance 1987”, dos New Order, está disponível em 2LP, 2K7 e 4CD numa edição da Warner.





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