Na hora de fazer contas os números são desde logo pesados… O mais recente álbum (que não nascido de registos de arquivo) de Peter Gabriel, “Live Blood”, data de 2012, com uma leitura ao vivo de “New Blood”, disco editado no ano anterior no qual o músico apresentava canções de várias etapas do seu percurso com novos arranjos para orquestra sinfónica. De 2010 data “Scratch My Back”, uma coleção de versões de canções de autores que iam de David Bowie ou Paul Simon aos Arcade Fire. É preciso na verdade recuar a 2022 para encontrar o seu mais recente álbum de originais gravados em estúdio, “Up”, lançado em 2002…
Mas ao mergulharmos agora (e finalmente) nas entranhas de “I/O”, descobrimos que, na verdade, as canções do primeiro álbum de inéditos que Peter Gabriel edita em 21 anos na verdade têm uma história que, em alguns casos, tem fundações lançadas em 1995 quando, terminada a etapa de composição do material que levaria a “Up”, começou a juntar novas ideias e canções que, como nunca antes, ficaram a marinar anos a fio até que em 2023 conheceram a luz do dia. A ritmos diferentes, as novas canções (mais do que as 12 agora incluídas no novo álbum) foram conhecendo várias etapas de trabalho, eventualmente uma ou outra surgindo em ocasiões separadas (sobretudo ao vivo) até que, finalmente, este ano, não só foram conhecendo lançamento em singles (digitais), passando, todas elas, em datas diferentes. pelos concertos da digressão que correu pelas estradas este ano. Mas agora, depois de tão longa que se fez a espera, eis que está aí “I/O”, disco cujo título ora sugere a ideia de “input”/“output” ou corresponde ao nome de um dos quatro satélites de Júpiter descobertos no século XVI por Galileu.

O hiato que as datas acima sugerem esteve, contudo, longe de ser um longo período de férias para Peter Gabriel. Houve digressões, muitos concertos, música para cinema, antologias e diversos lançamentos de música gravada ao vivo e que estavam até aí guardadas em arquivo. O silêncio não foi total, claro. Mas, mesmo perante as novas sugestões de “Scratch My Back” e “New Blood”, só agora, em “I/O”, podemos ver para onde caminhava afinal a música de Peter Gabriel. E, longe do que foram as suas primeiras experiências a solo após a saída dos Genesis e, maios distante ainda do afloramento de um momento pop maior no clássico (e muito popular) “So” de 1986, a música que agora escutamos no álbum de 2023 na verdade mantém a identidade de uma demanda encetada nos anos 90 e antes já exportada em “Us” (1992) e, sobretudo, “OVO” (2000) e “Up” (2002).
Traduzindo ecos naturais das experiências de quem já ultrapassou a fasquia dos 70 (e tem por isso um olhar já sedimentado sobre o passar do tempo), o disco reflete sobre o avançar dos aos, olha para o presente (inclusivamente num plano político, sem esconder ceticismo perante o alastrar do populismo), mas não o faz com azedume nem assombração, deixando mesmo marcas de luz não apenas na música mas também nas palavras. Musicalmente estão aqui marcas de um ADN que nasceu nos tempos do progressivo, assimilou depois outras linguagens e alargou mais tarde horizontes ao resto do mundo.
As canções são elaboradas nas formas, carregadas de detalhes, nascidas em sessões de gravação em estúdios espalhados por várias cidades e países, e nas quais colaboraram nomes como os de Brian Eno, Todd Levin ou Manu Katché . Cativam no encontro e sabem bem no reencontro. De resto, ao lançar cada uma das novas 12 canções a cada Lua nova, desde janeiro até há poucas semanas, Peter Gabriel deu-nos tempo para ir saboreando o álbum, desde logo acedendo às duas formas distintas de escutar as canções, ora na mistura mais “luminosa” de Mark “Spike” Stent ora na mais “dark” de Tchad Blake, agora individualizadas em álbuns distintos, cada qual vincando um dos caminhos. Na verdade, agora que chega o disco “finalizado” a estas duas misturas alternativas junta-se ainda uma terceira, a ‘In-Side Mix’, por Hans-Martin Buff. Esta multiplicação de possibilidades é acompanhada por uma invulgar diversidade nos lançamentos físicos que juntam vários formatos (vinil, CD, Blu Ray), juntando em alguns casos material em vídeo e também (numa edição especial a lançar em 2024 que reunirá todo o ciclo) um livro com textos e imagens. A fome, neste caso, deu em (boa) fartura.
“I/O” de Peter Gabriel está disponível, tanto na “Bright Mix” como na “Dark Mix”, em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Real World.





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