A criação de sub-séries no universo da coleção 33 1/3 parecia prometer um alargamento entusiasmante a outras línguas, linguagens musicais e culturas dada a concentração protagonista de títulos no clássico eixo anglo-saxónico que há muito domina o panorama das músicas com visibilidade global. Porém, ao invés da brilhante coleção 33 1/3 Brasil, por onde surgiram já títulos dedicados a discos de Caetano Veloso, Milton Nascimento, Chico Buarque, Tim Maia, João Gilberto (com Stan Getz) ou Gilberto Gil, entre outros, e das séries focadas no Japão ou Oceania que têm alternado títulos de artistas com implantação internacional com outros de nomes certamente a descobrir, a coleção 33 1/3 Europe nasceu com uma curadoria apontada a nichos talvez demasiado fechados para o que seria recomendável a uma proposta em tempo de afirmação e comunicação. E vale a pena notar que, quando surgiu em 2003, a série original, mesmo dada a sua génese eminentemente mais académica do que jornalistica, teve entre os primeiros dez livros publicados títulos dedicados a álbuns dos The Smiths, Pink Floyd, Joy Division, Prince, Love, Neil Young, The Kinks, Dusty Springfield, Jimi Hendrix ou os Abba, com álbuns dos Velvet Underground, James Brown, Beatles, Rolling Stones ou Led Zeppelin logo a seguir. Nada contra a presença de livros sobre uma banda black metal norueguesa (Darkthrone), um clarinetista búlgaro (Ivo Papazov) ou um cantador polaco (Czesław Niemen) numa coleção com capacidade de comunicação internacional. Mas serão os ideais para a apresentar? Aqui talvez a casa tenha sido começado a ser construída pelo telhado, havendo entre os 15 títulos já editados apenas uma escassa presença de nomes que, como pensou quem lançou a coleção original, terão a capacidade de garantir uma boa base de sustentação para a ideia. Edith Piaf (no volume 12 da coleção) é talvez a figura mais próxima de responder a uma ideia sólida de uma coleção capaz de atrair mais do que os já convertidos à causa. Há aqui um volume dedicado a Iannis Xenakis, outro a Heiner Goebbels, um aos Los Rodriguez. E um outro ainda dedicado à canção “Bella Ciao”. Tudo isto para notar que, ao dedicar finalmente um primeiro volume à música portuguesa, convenhamos que a pontaria foi acertada. E Amália Rodrigues, a eleita, com um disco ao vivo no Olympia, captado na segunda metade dos anos 50.
Antes de ler o livro questionava o porquê da escola de “Amalia à L’Olympia” (de 1957) ao invés dos mais canónicos “Busto” (título pelo qual ficou conhecido o seu álbum histórico de 1962) ou “Com Que Voz”. Mas aqui estamos afinal em sintonia com uma coleção que pegou pela primeira vez nos Beatles através de “Let It Be” ou os Nirvana com “In Utero”. Cabe ao texto explicar… E o livro, assinado por Lila Ellen Gray, professora no Dickinson College (EUA) e autora também de “Fado Resounding: Affective Politics and Urban Life” (de 2013), opta por um álbum que, antes da etapa em que Amália ajuda a transformar os caminhos do fado, olha antes para o processo de internacionalização de uma voz chegada de um país periférico (estabelecendo afinidades com figuras como a cubana Celia Cruz, a egípcia Umm Kulthum ou a sul-africana Miriam Makeba), reparando ainda nas dimensões políticas, sociais e culturais da exposição além-fronteiras do fado, nos tempos do regime de Salazar. O livro parte de alicerces sólidos na narrativa que acompanha as primeiras viagens ao estrangeiro de Amália (Espanha e Brasil), a primeira atuação em Paris (integrada num programa oficial) e o início de um relacionamento com a mítica sala parisiense e o seu responsável, Bruno Coquatrix, que em Amália projetou (com tremendo sucesso) uma clara aposta pessoal. O volume, de 154 páginas, “escuta” atentamente o disco, mergulha nos detalhes das histórias e significados de canções como “Uma Casa Portuguesa”, “Barco Negro”, “Perseguição” ou “Amália”. E junta ainda a dimensão pessoal de uma investigadora e do seu trabalho de campo feito em Portugal. Uma interessante leitura capaz de assegurar uma boa porta de entrada para o mundo da música portuguesa aos leitores da 33 1/3 Europe. Haja mais títulos como este no prelo, assim espero. Entre os lançamentos para 2024 haverá livros dedicados aos Einsturzende Neubaten, Tangerina Drean, um ao cantor albanês Ardit Gjebrea, um aos J.M.K.E., uma banda punk da Estónia e ainda um outro aos… Aqua (porque não?)… Depois de um bom 2023, a coleção parece agora avançar de melhor forma face ao que nos mostrou nos primeiros tempos.
“Amalia At The Olympia”, de Lila Ellen Gray, é o mais recente volume da coleção 33 1/3 Europe. Está disponível num livro de capa mole, com 154 páginas, num lançamento da Bloomsbury





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