O tempo e o espaço em redor de um músico por vezes não explicam tudo. E o “salto” que os Tangerine Dream dão na passagem do quarto para o quinto álbum contou com um elemento adicional determinante: a disponibilização de novos meios e, sobretudo, novos instrumentos. Formados em Berlim Ocidental em 1967 por Edgar Froese, ao seu redor tendo o músico chamando outros colaboradores, os Tangerine Dream começaram por procurar, nos limiares da experimentação, caminhos possíveis para a busca de uma identidade, num processo partilhado por inúmeros outros novos grupos alemães de então, dos Amon Düül aos Can, dos Popol Vuh aos Kraftwerk. Livres nas formas, mas por trilhos que iam para lá das genéticas do jazz, estes novos grupos traduziam ecos do seu tempo e do seu lugar. E a presença de emergentes instrumentos electrónicos era ali uma das características distintivas de uma música que, contudo, estava ainda longe do que aconteceria um pouco mais tarde. É precisamente quando, após quatro álbuns e um aplauso de John Peel para “Antem” (de 1973), que o escolhe como o melhor disco desse ano, Richard Branson os chama ao catálogo da recentemente criada Virgin Records (onde “Tubular Bells”, de Mike Oldfield tinha registado um êxito global), cedendo-lhes, com total liberdade criativa, os equipamentos (e instrumentos) disponíveis no seu estúdio. E é assim, do acesso a novas tecnologias, que nasce o ponto de partida para uma visão mais arrumada e direcionada da música dos Tangerine Dream que ganha forma no disco que, em 1974, assinala a sua primeira edição no catálogo da Virgin.

Em “Phaedra”, gravado no Reino Unido nos estúdios The Manor, e que é editado no mesmo ano de “Autobahn” dos Kraftwerk, os Tangerine Dream, criam todo um novo universo com recurso aos sequenciadores e texturas electrónicas, definindo uma linguagem que servirá de “imagem de marca” para grande parte da produção subsequente do coletivo. Com a sua formação clássica que então juntava a Edgar Froese os companheiros Peter Baumann e Christopher Franke, e contando com a preciosa contribuição de um sequenciador Moog (que tem presença marcante na faixa-título do álbum) os Tangerine Dream definem em “Phaedra” um álbum que, logo no seu tempo, foi reconhecido como peça determinante na evolução da música eletrónica que, por aqueles dias, mostrava-se já como uma realidade assimilada por figuras oriundas de escolas da “música popular”, criando assim novas possibilidades para um espaço que, anos antes, viva sobretudo nos laboratórios/estúdio de compositores europeus como Karlheinz Stockausen ou Pierre Schaffer.
Difícil de afinar, moroso na manipulação, o sequenciador Moog consumiu a parcela maior do tempo de estúdio, revelando a sua presença a pulsação rítmica que marca a faixa-título que ocupa toda a face A, que sugere uma contemplação cósmica e que, como as demais faixas do disco, nasceu de um labor de improvisação em estúdio. Foi também de um esforço de improvisação que nasceu “Mysterious Semblance at the Strand of Nightmares”, que Edgar Froese criou, num único take, a partir de um solo no mellotron, ao qual acrescentou efeitos cénicos, abre o lado B e conheceu depois uma versão curta que foi editada num single, seguindo-se “Movements of a Visionary” onde volta a marcar presença uma ordem estrutural definida pelo sequenciador e “Sequent ‘C’”, uma peça curta de Peter Baumann.
Com capa que apresenta uma pintura do próprio Edgar Froese, “Phaedra” é um dos títulos fulcrais da história da música electrónica e peça determinante para o talhar de um espaço para a música instrumental no quadro do mercado discográfico dos anos 70.





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