O ano era o de 1979… A formação original, com Stephen Duffy como vocalista, tinha dado lugar a uma nova banda, longe ainda de mostrar o line up que lhes valeria o epíteto de fab five três anos depois quando as suas canções, discos e telediscos os levaram a um estatuto de glória planetária… Da etapa inicial, podemos escutar algumas canções no álbum “Dark Circles” que, em 2003, Nick Rhodes gravou com Stephen Duffy, assinando então como The Devils (e o reencontro soube-lhes tão bem que, para o álbum, até criaram alguns temas novos). Faltava, contudo, conhecer a etapa seguinte. Já com Roger Taylor na bateria, mas antes das entradas em cena de Andy Taylor e de Simon Le Bon. E entre dois EPs, o primeiro deles editado em 2016, o segundo lançado na reta final de 2020, eis que finalmente essa questão ficou resolvida, sendo depois este acervo de arquivo reunido num só álbum. Ao ouvir estas canções, porém, fica a sensação que, se tivesse sido este o destino da banda, não estaríamos hoje (nem nunca) a falar dos Duran Duran…
A saída de Stephen Duffy tinha deixado cair por terra as canções que desde 1978 tinham estado a juntar para um eventual álbum de estreia. Simon Coley, o carinetista que integrava a formação original, também se afastara. E foi preciso recomeçar do zero, com canções novas. Os Duran Duran eram, em 1979, um quarteto que se apresentava como sendo constituídos por Nick (o teclista, que ainda assinava Nick Bates, o seu nome real), Nigel (o guitarrista, também ainda usando o nome que surge no BI, e que hoje conhecemos como John Taylor, o baixista do grupo), Roger (também Taylor, mas sem laços de parentesco com o guitarrista) e Fane (o vocalista, de nome real Andy Wickett, que podemos ver na imagem). Este último, que então trabalhava num turno noturno de uma fábrica de chocolates, tinha acabado de abandonar os TV Eye, cuja canção “Stevie’s New Radio” havia impressionado o jovem Nick Rhodes.
Do trabalho de escrita e ensaios nasceram novas canções que em breve estavam a subir ao palco. E a conhecer um primeiro registo em estúdio. Gravadas em dezembro de 1979, oito maquetes ganharam forma no estúdio de Bob Lamb, em Mosley (Birmingham). As canções documentavam o presente de uma banda que, num primeiro contacto, não parecia destacar-se muito da multidão que, na ressaca dos acontecimentos colocados em cena pela revolução punk, davam agora novos passos, a bordo da maré new wave. Ou pós-punk, como lhe quiserem chamar. Pareciam uma banda relativamente banal, igual a tantas outras… Mas, escutando com atenção, notavam-se ali sinais de que algo podia estar latente e que, podia faltar apenas um ou outro elemento para que o que estivesse ainda toldado pudesse eventualmente emergir. Mas a voz, se em palco traduzia a exuberância da personalidade do novo vocalista que servia bem as visões pop em construção, revelava-se ali, em estúdio com as marcas naturais de juventude de quem dá primeiros passos ainda sem a segurança desejada.
Guardadas nas memórias de velhas fitas, estas maquetes ganharam a luz do dia, valentes anos depois, num par de EPs agora reunidos num mesmo LP (ao invés dos EPs, dsponíveis também em CD, aqui a edição é exclusiva em vinil).

Do lote apresentado logo no primeiro EP, editado em 2016, escute-se com atenção “See Me, Repeat Me”. É claramente a melhor proposta de todo este lote de oito, animada por uma programação rítmica que sugere assimilação de heranças do disco e à qual falta apenas uma mais pungente relação entre o baixo e a bateria para desafiar a dança. É contudo nas linhas elegantes para teclas que descobrimos sinais da emergente identidade dos Duran Duran, mostrando já ali Nick Rhodes algumas marcas da sua assinatura autoral. Se dissermos depois que a sequência de acordes usada nesta canção está na base de um processo de evolução que culminaria no tema-título do segundo álbum da banda, ou seja, “Rio”, fica tudo dito. Estava ali uma pedra preciosa em potência. Latente.
O outro episódio significativo da primeira coleção de quatro maquetas de 1979 dos Duran Duran revela-se numa versão ainda muito imberbe de “Girls on Film”. Sim, já com o título da canção que chegaria a disco em 1981, embora com uma letra diferente e uma estrutura consideravelmente distinta da que depois o mundo inteiro escutaria quando a canção ganhou formas mais sólidas (embora já com a formação seguinte). As teclas, todavia, já desenham aqui linhas do futuro refrão e a guitarra já respira os apetites de escola funk que, sublinhada pela presença de novas marcas disco na secção rítmica. Outra peça promissora, portanto, porém aqui numa versão na qual só o refrão parece resultar em pleno. Não admira que tenha sido aí que houve menos mexidas… O lote revelado em 2016 (agora reunido na face A de um LP) inclui outros dois temas que o tempo deixou entretanto esquecer. “Working The Steel,” e “Reincarnation”, com teclas em sentido com o que os Ultravox fariam por essa altura.
Do segundo lote de maquetes que o EP lançado em finais de 2020 nos mostrou não há muito mais a acrescentar. Há um ambiente interessante definido pelas teclas em “Dreaming Of Your Cars”, tema que Andy Wickett trouxe da sua banda anterior (os TV Eye) no qual as guitarras e baixo sugerem ecos jamaicanos então em voga em algum terreno new wave (não será surpreendente acrescentar que, depois de se afastar dos Duran Duran, Andy Wickett se juntou a um grupo de reggae). “X Disco” parece aproximar-se mais dos caminhos de uma pop animada pelo disco que os Duran Duran tomariam logo depois… “To The Shore”, por sua vez, é uma base de trabalho para a canção que emergiria com o mesmo título no álbum de 1981. O fundo de teclas já sugere o rumo que a canção tomaria, mas a voz aqui não brilha. “Love Story” é outro momento inconsequente no qual (uma vez mais) só as teclas sugerem que aqui estão os Duran Duran…
Ao escutar, em 1979 um lote de maquetes como estas, um editor, um jornalista, um promotor de concertos, teria a sensação de que estava em mãos com uma banda em sintonia com os movimentos e tendências ao seu redor, embora revelando as maiores sugestões de promessa apenas no trabalho das teclas. Não haveria aqui argumentos para sugerir nem um eventual contrato discográfico nem mesmo um artigo de jornal que anunciasse que havia um futuro para contar a partir destas canções. E do impasse emergiu a necessidade de mudar, pelo qye formação da banda continuou a conhecer episódios de mutação. A entrada de Andy Taylor para a guitarra (e consequente desvio de atenções de John para o baixo) e a troca de Andy Wickett por Simon Le Bon juntaram as peças em falta. O que estava adormecido acordou. E, 14 meses depois desta maqueta ter sido gravada, o single “Planet Earth” mostraria como a música tinha evoluído seguindo sugestões mais promissoras face ao que o aqui estava ainda escondido. A imagem do grupo fora entretanto aproximada à dos Japan (estes ainda longe de serem um caso de sucesso) e o som vincara mais as costelas Bowie, Roxy Music e Chic… Nestas maquetes de 1979 esse cocktail mágico ainda estava algo adormecido…
O álbum “Girls On Film – The Complete 1979 Demos” que, tal como acontecera com os dois EP, usa na capa um elemento gráfico desenhado por John Taylor para a capa da maqueta original, é um documento (raro) de uma banda ainda em processo de busca por uma identidade. O LP acrescenta ainda alguma informação sobre estes tempos na pré-história de vida dos Duran Duran. Pena não incluir fotos da época.
“Girls On Film – The Complete 1979 Demos”, creditado como Duran Duran featuring Andy Wickett, está disponível em LP numa edição da Cleopatra Records.





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