No mundo do calendário discográfico as coincidências muitas vezes são tudo menos obra do acaso. No calendário discográfico de uma artista como Madonna então o acaso é coisa sempre menor ou igual a zero. Pelo que, na mesma semana em que o mundo descobria “I Feel So Free”, primeiro avanço para o álbum “Confessions II”, eis que o cabaz do Record Store Day (RSD) lançava, numa edição limitada a 5700 exemplares, uma primeira expressão em vinil do álbum ao vivo captado durante a digressão do “Confessions” original, o álbum que em 2005 a colocou pela primeira vez ao lado de Stuart Price (então sobretudo conhecido como o cérebro do projeto Les Rhythmes Digitales), num disco no qual Madonna assumia um reencontro com as duas premissas fundamentais da sua obra: fazer pop e fazer dançar. 

De certa maneira o álbum partia de um reencontro com uma lógica de diálogo entre a pop e os caminhos seguidos por  DJs e produtores associados à música de dança que haviam definido o rumo do seu histórico álbum de estreia em 1983. E esse, tal como “Confessions On A Dance Floor”, era fruto evidente de uma vivência no seio de uma música que na aurora dos anos 80, emergia nas noites de Nova Iorque, uma cidade com vontade de continuar a dançar, mesmo na ressaca do disco sound. Pouco mais de 20 anos depois, numa Nova Iorque noturna que tinha acolhido recentemente o fugaz electroclash, um álbum que voltava a colocar Madonna no mapa (ainda por cima com uma canção com um sample dos Abba, o que ainda hoje é coisa para lá de rara). Nesse disco Madonna voltava a escutar coordenadas daqueles dias, evocando então nomes como os de Patrick Cowley, Bobby O, Giorgio Moroder, Donna Summer ou os Jacksons… É verdade que podia ter nascido ali um episódio de nostalgia dançarina early 80’s. Mas “Confessions On A Dance Floor” partiu dessas genéticas para afirmar o que podia ser a canção pop, de alma dançável (e contemporãnea) em 2005. E fez história.

Essas confissões de há 21 anos deram a Madonna um dos seus melhores álbuns, colocando-a de volta a um estatuto de desafio que, na verdade, Madonna só tomaria no mais experimental (e magnífico) “Madame X”, de 2019. Agora, e enquanto espertamos pela confirmação das (boas) promessas que “I Feel So Free” lança para a sequela de “Confessions On A Dance Floor”, eis que o Record Store Day dá à discografia um terceiro lançamento em vinil de um álbum ao vivo. 

Se bem que Madonna tenha fixado registos de todas as suas digressões, só depois de “I’m Going To Tell You A Secret” (2006) o CD começou a entrar nesta equação, já que até então todas as suas Tours tinham conhecido registo em video (e no caso da Blonde Ambition Tour, retratada no filme “Na Cama Com Madonna, apenas no suporte de laserdisc. A memória da Re-Invention Tour foi assim fixada num filme de Jonas Akerlund, numa edição conjunta que ao DVD juntava o CD. Igual modelo caracterizou os lançamentos de “The Confessions Tour” (2007), “Sticky & Sweet Tour” (2010) , “MDNA Tour” (2013) e “Rebel Heart Tour” (2017), cabendo a “Madame X – Music From The Theater Xperience (Live)”, de 2021, uma novidade dupla: o lançamento da música em suporte de vinil (um triplo LP) e a apresentação do filme numa plataforma. Um ano depois, um duplo vinil recuperava parte do alinhamento de “Rebel Heart Tour”. E é precisamente sob esta mesma lógica que agora surge (também duplo LP) “The Confessions Tour”. 

O disco recupera a capa da edição do CD+DVD de 2007 mas, ao invés do que aconteceu com “Madame X – Music From The Theater Xperience (Live)”, 3LP no qual o vinil apresenta um alinhamento mais longo e completo, o título lançado no quadro do RSD deixa parte da história por contar, replicando o vinil a versão “curta” do alinhamento do CD (aquém das 21 do DVD), nem sequer juntando (o “bónus”) da dupla “Get Together” e “Ray Og Light” que foram acrescentadas à edição digital na loja iTunes… Que não fique um equívoco: é bom ter “Confessions Tour” num suporte em vinil (ainda por cima quando o alinhamento inclui “Future Lovers” com a citação a “I Feel Love”). Mas, e ainda por cima no quadro de um RSD (e com preços que já de si não são coisa fofinha), não seria má ideia valorizar os alinhamentos tal como o fez o triplo LP com a gravação da Madame X Tour.

“The Confessions Tour”, de Madonna, é um 2LP com edição limitada (a 5700 exemplares) da Rhino Records, lançado no quadro do Record Store Day 2026.

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