É numa rota de confluência para onde convergem ideias em sintonia com o mood neo-clássico que cativa atualmente atenções em volta de nomes como Olafur Arnalds ou Nils Frahm, mas que ao mesmo tempo não voltam costas a escolas techno, que ganha forma a música de uma dupla que passou esta semana por Lisboa. Depois de uma primeira visita integrada no Misty Fest, este novo concerto dos berlinenses Two Lanes foi um bom exemplo de uma noite capaz de ultrapassar velhos conceitos de fronteira.

Leo e Rafa Schmid são filhos de um pianista com caminho feito no jazz e de uma mãe pintora. Leo tem formação clássica, tendo estudado piano e cravo num percurso que o fez passar pela Juilliard School (em Nova Iorque). Rafa, por seu lado, fez um trilho como produtor com as electrónicas sempre como ferramenta de trabalho. Juntos desde 2018 como Two Lanes, acabam de editar um terceiro álbum de novas composições, representando o novo “A Part Of Us”, mais até do que os anteriores “Reflections” (2021) e “Dualiy” (2023), um terreno de partilha mais evidente dos percursos formadores de ambos os irmãos. 

Ao vivo, no LAV – Lisboa ao Vivo, na noite de sábado, começaram por chamar a cena cordas que acentuaram as visões de alma neo-clássica que marca a identidade do duo. Porém, com o avançar da noite, o palco acabou por ficar apenas habitado pelos dois irmãos, em duo acabando ambos por vincar a sua outra faceta, de genética techno, que abraçou sala e quem a habitava, com um trabalho de luz agregado às batidas que definiu igualmente um percurso que ia alternando cores dominantes com o avançar do alinhamento. E o que começara por ser uma noite contemplativa, acabou a sugerir uma festa inesperada, com a plateia a responder ao convite da música e da luz, dançando. 

Fazem por isso sentido as observações que ambos os irmãos já sublinharam em entrevistas nas quais fazem questão de vincar as diferenças que estabelecem entre a criação de música destinada a ser fixada em disco (mesmo que em suporte digital) e a que apresentam ao vivo. São espaços que comunicam entre si, que partilham parte das suas criações, mas que não deixam de servir uma lógica de complementaridade, amplificando afinal os horizontes da sua linguagem. No fundo, as duas vias (ou faixas) a que o próprio nome da dupla sugere, acabam inevitavelmente a construir uma estrada comum. 

Deixe uma Resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Trending