Working Week, 1989

“Fire From The Mountain” 

10 Records (1989) 


O feliz entendimento entre os caminhos do jazz e da música popular que floresceu em finais dos oitentas e teve presença marcante no panorama da música urbana em inícios dos noventas conheceu uma série de precursores num passado recente. Entre eles podemos contar o projeto Working Week, sede de operações do guitarrista Simon Booth e do safoxonista Larry Stabbins que antes tinham já trabalhado juntos nos Weekend (a banda que acolheu Alison Statton após o fim dos Young Marble Giants e que em 1983 nos deu o inesquecível La Verité).

Booth e Stabbins formaram assim o núcleo de um coletivo que foi chamando vocalistas e eventuais outros colaboradores, construindo uma discografia – hoje algo “esquecida” – encetada em 1985 com Working Nights e com derradeiro episódio em Black & Gold (1991), disco que reflete já uma clara assimilação de acontecimentos recentes nos espaços da música soul e do hip hop que mudavam então, a olhos vistos, o mapa dos acontecimentos no território que os Working Week vinham a trilhar desde a sua formação. 

Fire From The Mountain foi editado em 1989, o mesmo ano de Three Feet High & Rising, dos De La Soul, e de Club Classics – Vol. 1, dos Soul II Soul, álbuns que elevaram a um patamar de reconhecimento mainstream boas novas nos domínios do hip hop e da soul, entre ambos passando ocasionais ressonâncias de universos jazzísticos. Se formalmente a matriz rítmica dos temas que encontramos neste disco ainda não ecoa a presença evidente de contactos com o hip hop e as muitas derivações da cultura house que então já se faziam sentir em várias frentes, na verdade a capacidade de diálogo entre o jazz e os modelos da canção pop já respira aqui uma fluência notável, num alinhamento de horizontes abertos a várias frentes, visitando inclusivamente os espaços da salsa (que ganhariam maior visibilidade em “moda” breve que afloraria nos noventas) ou de memórias de uma certa assinatura musical das noites de Paris, estas particularmente visíveis em Waters of The Moon, onde contracenam as vozes de Julie Tipett (presente em diversos momentos e colaboradora regular do grupo) e do cantor francês Etienne Daho.

O alinhamento está recehado de verdadeiras pérolas, do ensaio quase ambiente do tema-título (com Cleveland Watkiss) ao instante pop para paisagem andaluz que emerge em Blade (Julie Tipett) ou o breve momento politicamente mais interventivo que escutamos em El Dorado (que, na versão então editada em máxi-single inclui samples de discursos da época que passam pela situação então vivida na Nicarágua ou Palestina). 

Fire Form The Mountain talvez não tenha o peso “histórico” do álbum dos Weekend nem a relevância no mapa acid jazz e jazz hip hop que pouco tempo depois caberia a discos de nomes como os Brand New Heavies, Incognito, Young Disciples, United Future Organization, Guru, Ronny Jordan, Dream Warriors, A Tribe Called Quest ou Us3. Mas é episódio a não ignorar num momento de viragem que capta heranças e ensaia modelos de vivência com o jazz antes mesmo da coisa ser reconhecida como cool pela “loud minority”.

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