Saudade, dor e distância nos tempos do exílio londrino de Caetano Veloso

Temos assistido, desde há já alguns largos meses a esta parte, a uma progressiva campanha de reedições da discografia de Caetano Veloso em suporte de vinil. O ritmo dos lançamentos tem sido regular, com algum espaçamento entre cada novo lote de reedições, e com uma curiosa opção por evitar o era uma vez cronologicamente ordenado dos discos que vão regressando aos escaparates das novidades. O foco das atenções tem sido lançado sobre títulos editados nos anos 60 e 70, estando neste momento “arrumada” a etapa inicial da sua discografia com a edição de “Caetano Veloso”, o disco de 1971 que muitas vezes é evocado pelo título da canção que abre o alinhamento: “London London” (isto porque entre 1968 e 1971 o músico lançou três álbuns, todos eles bem diferentes entre si, com apenas o seu nome como título).

A agenda cronologicamente irregular destas reedições já nos tinha trazido “Transa”, o disco de 1972 que, com este “Caetano Veloso”, corresponde a uma etapa de criação nascida durante o exílio que o músico viveu em Londres (que na verdade decorreu entre 1969 e 72). Este é contudo um disco bem diferente do mais vibrante (e feliz) álbum de 1972. “Caetano Veloso” é um disco que fixa a memória de uma alma abatida pela distância, pelo afastamento. O exílio, se por um lado abriu possibilidades de descoberta in loco (da música que Londres lhe deu a escutar aos muitos artistas e intelectuais brasileiros que foram passando pela sua casa e cimentaram a sua formação ideológica), por outro era o cenário das consequências pessoais de um tempo em que o Brasil viva sob uma ditadura.

Mais do que a história das canções e da sua gravação, os capítulos londrinos de “Verdade Tropical” são uma boa proposta de enquadramento para entender não apenas a música deste álbum mas o tom melancólico que o assombra de fio a pavio. O calor e a cor tropicalista era uma experiência assimilada, mas os tempos e o lugar deixaram espaço para outras manifestações, que Caetano tanto canta em português como, sobretudo, em inglês (com um delicioso sotaque).

“Caetano Veloso” é o disco em que Caetano conquista o receio das suas eventuais limitações como guitarrista (e experimenta outros desafios)… E foi o entusiasmo dos ingleses e de um produtor americano quem aqui favor em favor de uma conquista que, aliada à voz e às palavras, enche de verdade os cânticos de saudade e dor que habitam estas canções. Ao cantar “A Little More Blue” (uma das primeiras canções que compôs após deixar o Brasil), a lembrar a irmã em “Maria Bethânia” ou a medir a distância numa versão de “Asa Branca” de Luís Gonzaga o disco fixa a carga dessas memórias num alinhamento que serve também para saborear o prazer do cruzamento de linguagens como podemos escutar em “London London” ou “If You Hold The Stone”, que lembram que, mesmo sob uma evidente depressão, a verve do explorador de sons não estava silenciada.

“Caetano Veloso”, de Caetano Veloso, está disponível numa reedição em LP pela Phillips.

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