Coldcut, 1993

“Philosophy” 

Arista (1993) 

Tudo começou numa mítica loja de discos em Berwick Street, em pleno Soho londrino. A Reckless Records… Era lá que trabalhava Jonathan More, apresentava um programa na Kiss FM e era ainda um DJ em part time com trabalho conhecido na cena rare groove londrina em meados dos oitentas. Entre os clientes habituais da loja estava Matt Black, um antigo professor que trabalhava agora como programador de informática. Tinha criado uma mixtape para a Capitol Radio e mostrou-a a More. Conversa puxa conversa, mistura puxa mistura, e estavam a trabalhar juntos num tema que pouco depois lançavam num white label.

Criaram os Coldcut ao mesmo tempo que começaram a ter juntos um programa de rádio. Com ouvido com “olho” atento, tornam-se dos primeiros criadores reconhecidos de novas movimentações house que então surgiram no Reino Unido e revelaram, nos tempos que se seguiram, uma série de vozes, com elas somando os primeiros “casos” de popularidade dos Coldcut. Usaram um sample de Ofra Haza numa remistura de Paid in Full de Eric B & Rakim. Editaram Doctorin’ The House com Yazz como vocalista. E, depois, People Hold On e My Telephone com Lisa Stansfield. Mais adiante gravaram Find a Way com Queen Latifah. Além dos singles editaram dois primeiros álbuns para a Ahead Of Our Time: What’s That Noise em 1989 e Some Like It Cold em 1990.

Desta chuva de estrelas que chamam a alguns dos seus temas e da aclamação dos dois primeiros LP nasceu o convite para um terceiro álbum, desta vez para o catálogo de uma grande editora, a Arista. A euforia house e acid house tinha já cedido o fulgor do entusiasmo mediático a espaços em atmosferas chill out. O mesmo gosto por caminhos do jazz e do funk que alimentara o rare groove ganhara nova vida através do acid jazz. E, depois do álbum de estreia dos Soul II Soul (em 1989), a soul estava novamente na ordem do dia em território britânico. E é neste clima, e na confluência destes caminhos, que florescem as ideias que fazem o alinhamento de Philosophy, disco no qual os Coldcut claramente assumem o desvio rumo a outros horizontes para o rumo da sua música.

Com momentos maiores nessa belíssima canção de travo acid jazz que é Chocolate Box ou numa magnífica versão do clássico Autumn Leaves, ambas com arranjos de cordas do compositor Ed Shearmur, o álbum é uma interessante expressão do state of the art do conjunto de heranças que definem o gosto estrutural dos Coldcut. Face ao sucesso do álbum de estreia este terceiro álbum passou algo a leste das atenções mainstream. Mas perante alguns dos títulos então lançados por editora como a Talkin’ Loud, Acid Jazz Records ou mesmo, pouco depois, a Mo’Wax, Philosophy destacou-se pela capacidade em talhar canções de linhas seguras e formas elegantes. Porque os Coldcut sabiam que não bastava convocar um clima jazzy e um certo saber na gestão dos ritmos para fazer um bom disco.

Obrigações contratuais tinham até então impedido os Coldcut de editar (com esse nome) na etiqueta Ninja Tune que Jonathan e Matt tinham fundado em 1990… Depois de resolvidos esses “casos” legais a Ninja Tune passou a ser a casa dos discos dos Coldcut, que ainda permanecem em atividade como dupla criativa.

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